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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

As coisas que fizemos para nos desmerecer...








  Ela o amava mais que todos que teve. Mais que todos juntos. Como se estivesse perdendo a visão e ele fosse o por-do-sol. Desde o início sabia que haveria um fim, e o fato de desconhecer o quando, o onde ou como, deixava-a numa agonia constante, um eterno suspense. Nem conseguia viver cada instante com intensidade, por não saber lidar com a pressão da iminência do fim; também não conseguia mandar tudo para o espaço e acabar logo com o tormento. Foi justamente esse comportamento que abreviou a crise e provocou a ruptura anunciada. Seu desespero foi o veneno da relação, o fósforo riscado na trilha de pólvora. E tudo foi pelos ares.


Vamos voltar alguns anos para entender como tudo aconteceu. Conheceram-se em uma festa, os dois a trabalho. Ela era secretária e ele assessor de influentes empresários do mesmo ramo; assuntos em comum os aproximaram. É verdade que ele recebeu um incentivo a mais do chefe, que achou conveniente ter um contato no concorrente. Prometeu até uma promoção, caso conseguisse informações interessantes. Para ela foi a realização de um sonho, estava apaixonada e tinha certeza que dessa vez encontrara o cara certo.


No início tudo foi perfeito, exatamente como o torpor e a imbecilidade dos apaixonados permitem acontecer. Ele não tinha defeitos para ela. Passaram a morar juntos em apenas três meses. Com o tempo, porém, tornaram-se os piores pesadelos um do outro. Inimigos mortais dividindo a mesma cama. Ele a traía descaradamente, e ela se entupia de remédios, tornando-se cada vez mais distante da pessoa que havia sido até ali. Chegou ao limite de tudo o que é aceitável que uma pessoa faça para se manter merecedora do respeito alheio e, ao transpor esse limite, o fez com a sensação de não poder mais trilhar o caminho de volta. Cobrou dele as promessas feitas na cumplicidade da madrugada, como quem cobra aos pais uma história antes de dormir. E sua ingenuidade era a desculpa que usava para justificar a maneira como enxergava a vida. Exigia dele que fosse perfeito, que fosse exatamente com imaginava que deveria ser. “As pessoas não são como sonhamos, querida!” Mas quem disse que ela dava ouvidos?! Meteu na cabeça que o ator daquele filme se comportava da forma como ele deveria, como todos os homens deveriam ser. Queria fazer do vilão um mocinho a qualquer custo. Não conseguiu. Sua insistência trouxe o desentendimento, e em pouco tempo não se reconheciam mais. Ou será que nunca tinham se conhecido?


No domingo à tarde, depois que ele disse que havia se apaixonado por outra pessoa, mais leve, mais real, mais equilibrada, mais jovem... depois que ela gritou, ameaçou, e fez uma cena que havia visto há muito tempo, ele pegou as malas e bateu a porta. Ela foi até o quarto, pegou o espelho, colocou à sua frente e deslizou, chorando na parede oposta, para ver se estava fazendo a cena direitinho.


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Poema de minha descoberta recente









Agora sei
que não nos pertenceremos jamais.
Que sua boca nunca será minha,
que minha cabeça
nunca descansará sobre teu peito
que suas mãos não me consolarão,
que meus cabelos nunca
deslizarão entre seus dedos.
Agora sei que não te abraçarei
quando te aborreceres,
que não enxugarei suas lágrimas,
que não riremos juntos de nossa escandalosa felicidade.
Agora sei
que meus cabelos não
embranquecerão ao teu lado,
e que não serás testemunha
de minhas caduquices.
Agora sei,
que não teremos netos,
e que nem seremos infelizes juntos.
Não terei de ti o que quero,
não terás de mim o que tenho a oferecer,
e saber disso me enche
de uma saudade
de tudo o que
agora sei
que não viveremos jamais.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Harmonia dos Prazeres






Quando Harmonia dos Prazeres chegou à casa de Dona Iolanda, ainda respondia pelo nome de Agostina Maria da Silva e tinha a cabeça infestada de piolhos. Vestia uma blusinha de alças com estampa de flores miudinhas tão apagada pelo uso que não contrastava mais com a saia listrada. Nos pés não usava nada, combinando com as mãos vazias. Perdera a mãe e o irmão mais novo para a fome e decidiu lutar contra o destino certo, pois possuía a teimosia dos sobreviventes. Completou dezoito anos dois dias após sua chegada à Cabeceira do Rio Seco, e bateu à porta do bordel para não ter que mendigar.


- Preciso de emprego, – falou para a senhora alta que a atendeu – senão vou morrer de fome. Não sei pedir, muito menos roubar. Tudo o que peço é um prato de comida, que para mim vale mais que ouro agora.


- Entre garota, não negocio nada com desesperados. – disse Iolanda, amarrando os cabelos – Coma alguma coisa e depois me diga se ainda quer trabalhar para mim. A vida aqui é dura e triste, não a recomendo para quem tem outras habilidades.


- Dona, conheço a dureza da vida. Nada mais triste que ficar sozinha nesse mundo com a morte esperando o momento certo para te levar. Acredite, se eu tivesse saída estaria lá.


- Qual seu nome menina?


- Harmonia. Harmonia dos Prazeres.


Dona Iolanda soltou uma gargalhada de estremecer seus braços gordos e compridos.


- Seu nome de batismo tolinha, não acha que vou acreditar que te deram um nome já pensando que seu fim seria a vida!


Agostina se apresentou, mas decidiu logo na primeira semana que usaria o nome inventado para não desrespeitar o que herdara da avó paterna. Escolheu um que fosse ao mesmo tempo, uma identificação e uma propaganda. Dona Iolanda achou engraçado e a apelidou de Tininha só para contrariar a mulata.


A chegada de Harmonia coincidiu com a festa da igreja, e como não era conhecida, conseguiu passar pelo crivo das beatas e montar uma barraquinha, um sonho antigo de dona Iolanda. Oferecia queijadinhas oficialmente, mas o prêmio secreto para quem comprasse o maior número de doces era a estreia da menina. Dona Iolanda garantiu que nenhum homem havia tocado a moça, e em pouco tempo não havia vestígio de queijadinha na barraca improvisada. O sucesso entre os homens da cidade foi tanto, que para identificar o ganhador, Harmonia precisou recorrer ao caderninho onde registrou as vendas.


O prefeito ficou em terceiro lugar. Sua esposa, sem saber do prêmio, pediu que ele desse algumas para os eleitores mais chegados. Se tivesse sido a quermesse do ano passado ele certamente ganharia, mas esse ano estava com a popularidade baixa e pouquíssimos amigos. Em segundo ficou seu Finório, da padaria Flor de Cabeceira. Comprou cento e cinquenta para vender durante a semana dizendo que eram fresquinhas. O vencedor foi Tácito Eurípedes, o funileiro, que pagou por duzentos e quinze queijadinhas e comeu só uma. As outras devolveu para serem vendidas novamente, recebendo das senhoras da igreja os mais altos elogios. Disseram que o pobre pagava uma promessa feita pela mãe quando ainda era um bebezinho. A verdade é que ele estava enfeitiçado pela beleza inolvidável da morena de ancas largas e seios púberes, que andava descalça pelas ruas cumprimentando a todos com um sorriso estreme.


A primeira vez que Tácito viu Harmonia, soube que seu destino estava traçado desde o nascimento e teve medo. Viu nos olhos da moça que nascia naquele instante para morrer por causa dela. Na noite da quermesse, quando soube que as queijadinhas eram o ingresso para os braços da amada, reuniu todas as suas economias e comprou o direito de estrear sua musa. Nutria a esperança de convencê-la a viver com ele e confiava na força de seu amor. Tinha para oferecer uma vida simples, é verdade, mas honesta. Nos dias que se seguiram, arrumou a casa e fabricou utensílios novos para a cozinha, comprou mais uma cadeira e algum tecido para forrar a cama. A ansiedade foi tanta que o rapaz começou a passar mal no dia anterior ao marcado para receber o prêmio, e caiu de cama, gravemente enfermo.


O caso é que demoraram em socorrê-lo, pois morava só em uma das casinhas da vila de dona Argentina, e por ser muito reservado, os vizinhos não estranharam sua ausência durante quase dois dias. Quando faltou à entrega do prêmio a que tinha direito é que souberam do acontecido, porque a cafetina foi ela própria à casa do fazedor de lampião se desobrigar do compromisso. Saiu de lá mais enlaçada do que jamais fora em toda a sua vida. Não pode negar ao moribundo o pedido que fez a ela de trocar uma noite com Harmonia pelos cuidados da moça durante sua enfermidade. Assim, dali a um quarto de hora, Harmonia descia a Rua da Alvorada para se meter nos corredores apertados da Vila Buenos Aires com a missão de servir de consolo a Tácito Eurípedes nos dias de convalescença. A moça não achou a função difícil, coisa pior era passar fome. De resto suportaria quase tudo. Cuidava da alimentação de Tácito, fazia sua higiene, limpava seus penicos, aplicava-lhe compressas... Tudo com uma graça que só fazia aumentar a admiração do rapaz por ela. O doente esteve a ponto de piorar só para estender aqueles dias de cumplicidade; mas Harmonia era uma santa, e fez o milagre de erguer o funileiro da cama em pouco mais de uma semana.


Quando avisou que não voltaria mais, Harmonia foi surpreendida com um homem aos seus pés, declarando todo o amor que sentira desde a primeira vez que seus olhos vislumbraram tamanha beleza e graciosidade. O assombramento da jovem pode ser percebido pelo corpinho arrepiado e trêmulo. Jamais na vida alguém antes havia dito que a amava, sequer demonstrado, e agora aquele rapaz a fazia perceber-se gente, merecedora de algum sentimento. Chorou. Tácito ergueu-se de pronto e, enquanto observava a lágrima descer lentamente pelo rosto de Harmonia, pegou a mãozinha da moça e colocou o anel que havia sido de sua mãe. Era uma joia fininha, sem pedras ou qualquer outro enfeite, mas para os dois equivalia ao caminho que trilharam ao encontro um do outro. Se perguntassem a Harmonia se mudaria alguma coisa em seu passado naquele instante ela responderia que nada, simplesmente porque tinha medo que algo a desviasse daquele momento mágico. Amou Tácito pelo amor que ele sentia por ela. Todas as tristezas de sua vida desapareceram e deram lugar à alegria de saber que, finalmente, pertencia a alguma história. Só que não é o passado que devemos temer, ele não pode nos surpreender. O que nos pega desprevenidos, o que não podemos evitar, é o que está por vir. O futuro é que esconde atrás de suas cortinas nebulosas o que nos eleva e o que nos abate. E o futuro de Harmonia e Tácito ignorava por completo os planos que os dois passariam a fazer dali para frente.
Naquele mesmo dia, a mulata e seus passos musicais desceram a rua de chão batido em direção ao bordel à beira do rio para pegar suas coisinhas e agradecer à Dona Iolanda e todas as meninas pelos dias que passara ali. Levava nas mãos um trocadinho, presente do noivo, para que se hospedassem em uma pensão na cidade até o dia do casamento. Dona Iolanda recebeu a notícia com estardalhaço e festejos. Abriu uma garrafa de sidra e distribuiu entre copos improvisados para brindar o fim de uma carreira que ela sabia não ser o dom da moça. Depois que as meninas ficaram satisfeitas com o relato do pedido feito à Harmonia, a dona da casa chamou a noiva a um canto e perguntou:
- Tininha, o rapaz sabe do que aconteceu nos dias que você passou aqui?
- Não senhora, Dona Iolanda. Não tive coragem de contar. Sei que ainda não conheceu mulher, e conto com isso para não ser descoberta. Não é justo que eu perca tanto amor porque meu homem chegou atrasado alguns dias. Se ao menos ele não tivesse adoecido...
- Não lamente querida, tudo vai dar certo. Se você fizer exatamente o que eu mandar ele não chegará a desconfiar, mesmo que seja experiente.
A confiança que Harmonia depositava naquela senhora de olhos infantis era tanta que deixou a preocupação de lado e voltou para as perguntas das colegas.
Dona Iolanda nunca faltou a um compromisso e agora não tinha sido diferente. Quando Tácito trocou a estreia da menina por seus cuidados de enfermeira, Iolanda procurou Finório e, como era justo, lhe concedeu o direito de inaugurar os serviços da morena no bordel. Acontece que a moça tinha o poder de enfeitiçar os homens, para sua sorte e desgraça, e seu Finório tornou-se um cliente assíduo e desesperado. Não se satisfez com a noite do prêmio, e voltou em todas as outras depois dela. Sempre que Harmonia voltava da casa do pobre funileiro encontrava o dono da padaria a esperar por ela.
Na noite do pedido de casamento, quando Dona Iolanda avisou ao comerciante de que teria qualquer menina como compensação pelo fim dos serviços de Harmonia, o homem quebrou todo o salão e foi ao hotel a procura da moça. Harmonia não o recebeu, em seu lugar mandou um dos empregados do hotel com uma arma à cintura para convencer Finório de que tudo estava acabado. Tinha medo que o escândalo chegasse aos ouvidos do noivo, decerto ele terminaria tudo se soubesse que estava sendo enganado. Deitada em sua cama, chorando e pedindo aos Céus que aquilo acabasse logo, Harmonia ouviu quando Finório foi arremessado à calçada e gritou:
- Isso não vai ficar assim, morena! Você é minha e de mais ninguém!
Harmonia ainda esperou que Finório voltasse para buscá-la, mas nada aconteceu. Dormiu sentada atrás da porta com medo de um arrombamento.
 Pela manhã, tomou um banho e partiu para a casa do noivo decidida a contar a verdade para não ficar exposta a ameaças. A rua tranquila tinha a cara da vida que queria levar dali para a frente, crianças já brincavam nas ruas e ela imaginou seus próprios filhos ralando joelhos naquelas calçadas. As gargalhadas das crianças deram a Harmonia a esperança de que seria aceita, afinal o amor de Tácito parecia forte demais para esmorecer diante de uma decepção. Por certo ele ficaria aborrecido, talvez pedisse um tempo para pensar. Harmonia esperaria pelo tempo que fosse necessário, o importante era lutar pelo homem da sua vida. Empurrou o portãozinho com o coração aos pulos, mas confiante. Achou estranho a porta estar aberta e por um segundo teve medo do que encontraria, mas a casa estava mergulhada em silêncio e paz. Dirigiu-se ao quintal já despreocupada e percebeu que havia alguém ali que não parecia seu noivo. Ao aproximar-se do homem sentado nas raízes do grande e velho carvalho, reconheceu Finório e estremeceu. Só depois viu o noivo deitado no chão, o corpo ensanguentado e imóvel. Sem forças para gritar, olhou para o homem como quem fizesse uma pergunta e ouviu a resposta que tanto temia:
- Eu avisei, morena. Agora volte para o trabalho e nunca mais me diga adeus.    




segunda-feira, 10 de outubro de 2011

João Mazelas e a Alma Penada.







João Eurico Martinez era coveiro. Trabalhava no Cemitério Municipal de Cabeceira do Rio Seco há tanto tempo que já nem se lembrava de ter feito outra coisa na vida. Há alguns anos fizera planos de se mudar com a família para um sítio a caminho de Tornados, mas quatorze dias antes da mudança um aguaceiro desceu pela cidade arrastando quase tudo e todos, inclusive a mulher e os oito filhos de João. Só lhe sobrou Quixote, o cachorro, que estava com ele na cidade vizinha.
Depois desse descalabro, o coveiro ficou conhecido como João Mazelas e tornou-se amargurado pelo arrependimento de ter deixado a família desamparada, mesmo com a insistência da mulher para que ficasse até que os ventos espantassem as nuvens assustadoras que se formavam. Enquanto os outros moradores se uniram em mutirões para desobstruir as estradas e tirar da cidade aquela cara de apocalipse, João se mudou com Quixote para o casebre dentro do cemitério que, miraculosamente, permanecia intacto. Passou a viver isolado a maior parte do tempo e, nas raras vezes que visitava a cidade, não se podia ouvir sua voz. Comunicava-se com gestos e grunhidos, e quando não conseguia se fazer compreender, ia embora espraguejando e chutando o chão, deixando as pessoas apavoradas. Por esse comportamento excêntrico, ganhou fama de louco. A simples menção de seu nome fazia os pequeninos obedecerem aos pais de imediato. Não demorou a tornar-se uma lenda na pequena cidade, e até algumas matérias saíram na Gazeta Cabeceirense sobre aquele ícone da catástrofe local. Para fugir ao assédio de curiosos, refugiava-se nos escombros de sua antiga casa, que só estava a salvo das pessoas porque era necessário atravessar o Bosque dos Perdidos para ter acesso a ela. Ora, o Bosque era um dos lugares proibidos pelos moradores de toda aquela região, juntamente com as Terras das Rotas Diagonais e A Floresta Descomunal formavam o que havia de mais perigoso no pequeno mundo conhecido por eles, ameaçava-lhes a existência e ninguém quer deixar de existir. Não temiam a morte, mas o desaparecimento, o exílio.
Ironicamente, esse era o maior desejo de João. Queria poder evaporar. Preferia ter ido embora com a família para onde quer que eles tenham ido. Qualquer coisa teria sido melhor que aquela sensação de não pertencer mais a lugar nenhum que agora o perseguia como um inimigo interno, aprisionado em sua mente e coração, respirando junto a ele, se alimentando com ele, destruindo-o de dentro para fora numa morte lenta e dolorosa. Para aliviar um pouco sua dor, passava todo o tempo livre contemplando os restos da vida que tivera. Contrário ao que se esperava, o lugar mantinha a mesma atmosfera tranquila dos dias felizes que passara com a família. Suas visitas eram uma busca desesperada de consolo e paz. E de lembranças. Sentia-se próximo aos parentes, e se fechasse os olhos ainda podia fingir que chupava uma laranja debaixo das árvores observando as brincadeiras dos meninos. Podia jurar que o cheiro de comida o convidava para o almoço, e até conseguia ouvir o batucar das panelas.
Os moradores de Cabeceira acreditavam que o lugar era amaldiçoado. Contavam que uma família havia morrido ali a muitos anos de uma doença estranha. Curiosamente, o pai foi o único sobrevivente, exatamente como agora. O homem chegou a ser acusado de envenenar a mulher e os filhos, e acabou fugindo antes que fosse morto por populares. Depois disso a casa ficou vazia durante anos, até que João fosse morar com a família. Apesar de ser um homem simples, João Eurico não dava ouvidos a crendices, atribuía suas desventuras ao curso natural da vida e sabia que coisas ruins acontecem a bons e maus. Não havia revolta em seu coração, mas também não havia espaço. A dor tomou conta de tudo o que restou.
No dia que a esposa faria anos, João se levantou ainda de madrugada, passou um café sem açúcar, tomou de um gole uma xícara bem quente e partiu para a antiga casa colhendo flores pelo caminho para depositar debaixo da amoreira.  Andava despreocupadamente e até um pouco feliz, como se fosse entregar o ramalhete em mãos. Era como se a caminhada durasse alguns minutos, e não a hora e meia que na verdade lhe custava. Quando atravessava a última clareira, sabia que podia olhar na direção do lugar e avistar a cozinha que não havia sofrido nenhum dano, mas nesse dia, ao erguer os olhos para a casa, viu o vulto de uma figura feminina atravessar a janela e temeu. Por um instante acreditou em tudo o que as pessoas lhe disseram sobre a história do lugar e correu o mais que pode, seu coração estava indeciso sobre se devia parar ou bater cada vez mais rápido tamanho o medo que se apoderara do homem. Com certeza a esposa que havia sido envenenada pelo marido ainda vivia ali. Por isso ele escutava barulho na cozinha quando dormia. Tinha atribuído tudo aos ratos, mas agora já duvidava dos roedores.
Quando finalmente alcançou o cemitério estava ensopado de suor gelado, e os olhos esbugalhados fizeram Quixote pular nos degraus da varanda e latir para o portão. Correu para dentro de casa e vasculhou tudo procurando a Bíblia ignorada por tantos anos. Precisava esquecer aquele vulto ou não pararia de tremer nunca mais. Leu os Salmos até se sentir mais calmo, mas trabalhou aquele dia com a sensação de que os mortos acordariam de seu sono eterno e levantariam dos caixões como se da própria cama. À noite custou a dormir, mas ao levantar pela manhã sentia-se mais curioso que apavorado. Pensou em retornar ao lugar e tirar a prova do que significava aquela aparição. Partiu levando Quixote, para se sentir mais protegido.
Ao avistar a cozinha, parou por alguns minutos esperando que o vulto desse sinal de sua presença. Nada aconteceu. Ganhou confiança e aproximou-se lentamente, mas estacou diante da soleira da porta assustado com o que vira. Várias tulipas apareceram do dia para a noite, enfileiradas no que antes era o caminho para a porta principal. Aquilo para ele foi a confirmação de que o sobrenatural rondava sua vida. !
Voltou para o cemitério disposto a descobrir o que o além queria com ele. Talvez estivesse vivo por engano e agora precisasse consertar o erro de ter abandonado seus amados a própria sorte no último dia de vida deles. Como não tinha nenhum enterro, felizmente, aproveitou para dar uma caprichada na aparência geral dos jazigos perpétuos, que eram os mais esquecidos em sua rotina. Ao entrar na parte nobre do cemitério, ficou impressionado pela primeira vez com aqueles anjinhos e suas harpas, e teve a impressão de uma ou outra fotografia ter-lhe mandado uma piscadela. Sacudiu a cabeça e murmurou de si para si que estava enlouquecendo. Tantos anos trabalhando com mortos que começava a variar! O dia terminou sem que pudesse colocar flores nos vasinhos sobre os túmulos.
- Amanhã eu ponho as flores mais bonitas que encontrar pessoal! – bradou em alta voz, ao mesmo tempo em que pensava no absurdo da situação. Definitivamente precisava de um médico de doidos, concluiu.
Chegou à casa tão exausto que mal pode terminar o banho. Adormeceu assim que sua cabeça tocou o travesseiro e sonhou. Em seu sonho escrevia um bilhete para o fantasma que agora habitava sua casa destruída e deixava sobre a mesa da cozinha. Mas ao voltar para pegar a resposta era recebido por seus filhos e esposa, com a alegria que lhes era comum. Acordou triste com o fim do que para ele era um desejo mais que um sonho, mas passada a primeira impressão, sentou-se e escreveu o tal bilhete com a brevidade que fazia parte de seu caráter. Dizia assim:
- Senhora Seja Lá Quem For, o que queres de mim?
Foi até sua casa e depositou o bilhete na mesinha da varanda. Não teve coragem de entrar porque achou que seria uma falta com a nova moradora, mas percebeu que havia um balanço na amoreira e arrepiou-se inteirinho. Foi para o barraco do cemitério satisfeito por não ter dado um esbarrão acidental naquela criatura do outro mundo.
Conforme prometera, encheu o cemitério de flores e aproveitou a tranquilidade de uma cidade sem mortos novos para capinar o pátio e lavar o chão das capelas. Sem perceber sua tristeza foi dando lugar a rotina pesada de trabalho e foi dormir mais preocupado com a resposta do fantasma que com a solidão da vida sem o amor dos seus pequenos. No dia seguinte, partiu para o antigo lar sem ao menos tomar o café. Encontrou no mesmo lugar de seu bilhete, um outro quase tão breve e sincero.
- Senhor Martinez, só peço que me permita passar um tempo no que foi sua casa um dia. Prometo fazer as melhorias que estiverem ao meu alcance como pagamento pela hospedagem. Gostou das tulipas?
Como havia levado papel e caneta, João Eurico respondeu:
- Fique o tempo que precisar, não tenho usado a casa. Só gostaria de continuar visitando o lugar de vez em quando para matar a saudade de meus entes queridos. Gostei sim, mas prefiro margaridas.
No dia seguinte a resposta o aguardava debaixo de um vasinho de margaridas:
- Sinta-se a vontade para vir quando quiser. O lugar é calmo e uma visita não me faria mal.
Os dias se passaram e a correspondência entre os dois tornou-se um hábito. Através dos bilhetes João descobriu que a alma se chamava Florípedes Garcia, que havia perdido o pai tragicamente, que agora vivia só, e que um dia tinha sido noiva, mas fora abandonada no altar. Trabalhara na roça desde criança e nunca frequentara a escola, mas aprendera a ler com a mãe antes que ela morresse vítima de uma picada de cobra na lida com a cana. À alma João contou da tragédia que se abatera sobre sua família, da infância rica quando seu pai ainda era vivo, do trabalho no cemitério e da solidão que o acompanhava mais por gosto do isolamento que por falta de oportunidade. Tinha uma irmã na cidade, mas só a visitava uma vez por mês. Tornaram-se assim os melhores amigos e João esqueceu-se de sua dor. Na véspera de Natal, o coveiro recebeu um bilhete diferente:
- Querido amigo, sinto dizer que terei de partir amanhã bem cedo. Obrigada por tudo o que fizestes por mim, jamais me esquecerei de tanta bondade. Infelizmente, o lugar para onde vou é muito longe daqui, apesar da dor que isso me causa, sou obrigada a constatar que essa despedida é um adeus.
João pegou o bilhete debaixo do vasinho de margaridas como de costume, e ao terminar de ler entrou em desespero. Não era justo perder de novo uma pessoa por que fosse tão apegado. “Que sina a minha!” – pensou. Pegou um papel amassado no bolso da calça e escreveu apressadamente:
- Florípedes, sei que o teu compromisso é importante e imagino que não seja possível escapares dele. Contudo, não posso me despedir de você por bilhetes. Preciso vê-la! Se não olhar para o que quer que sejas, jamais poderei suportar tua ausência. Sou um homem acostumado a perdas, mas todas elas olharam em meus olhos antes da despedida. Peço-te, me concedas um encontro. Amanhã pela manhã, estarei aqui para vê-la partir.
Para João Eurico uma noite nunca havia demorado tanto a passar. Não pode pregar o olho, sentia uma angústia mortal, como se não fosse sobreviver à dor de mais uma separação. Pensou que estava perdidamente apaixonado por uma criatura do outro mundo, e estava disposto a partir com ela para o além. Sem poder suportar a espera, levantou-se no meio da noite e atravessou o bosque, para esperar pelo amanhecer recostado à amoreira. Em frente a casa que agora pertencia ao seu amor fantasmagórico, João Eurico adormeceu.
Pela manhã, foi acordado por uma voz suave que o chamava:
- João? João, acorde!
De um salto o homem se colocou de pé, boquiaberto e estatelado. Florípedes caiu na gargalhada e perguntou:
- Que é isso homem? Parece que estás diante de uma assombração! Assim você me ofende.
- E não estou?
- Não está o quê?!
- Diante de uma assombração, oras?!
- Claro que não homem! Endoidou de vez foi?
- Mas você não é a mulher que fora envenenada pelo marido e voltou para resolver algum assunto pendente neste mundo?
- João, você está me assustando. Que assunto é esse?
- Espere. Quem é você?
- Como quem sou eu? Sou Florípedes.
- Sim, isso eu sei. Mas você não morreu?
- Ai, caramba! Não é que o povo tem razão e você é doido de pedra!
- Florípedes, me dê um instante para entender. Acho que fiz uma confusão enorme sugestionado pelo medo. Se você não é uma alma, porque não se apresentou há mais tempo? E porque mora nesses escombros?
- Não me apresentei porque você começou a fazer contato por bilhetes, e como conheço sua história, respeitei a distância que foi estabelecida. Agora, o motivo pelo qual estou escondida aqui é um pouco mais complicado. Perdi meu pai na mesma enchente que levou sua família. Tínhamos uma pequena quitanda em sociedade de um amigo, um homem impiedoso que roubava meu pai descaradamente. No mesmo dia que enterrei meu único parente, ele entrou em minha casa e me avisou que tudo o que eu acreditava pertencer a meu pai, na realidade era dele. Tenho certeza que é mentira, mas não sei como provar. Ainda acrescentou que me despejaria em uma semana, a não ser que eu aceitasse me casar com ele. O resto você pode imaginar. Conheci sua história através dos jornais e sabia que morava no cemitério. Nunca pensei que continuaria a visitar essa casa, pelas lembranças que lhe traria. Achei que aqui seria um excelente esconderijo. Há alguns dias tenho feito contato com asilos em outras cidades me oferecendo para cuidar dos idosos. Ontem recebi uma proposta para trabalhar com uma senhora em Poço das Almas e estou indo para lá. Sinto muito, mas não tenho escolha.
- Você pode me responder uma pergunta?
- Quantas você quiser.
- Você me ama?
- Amo.
- Então você tem uma escolha. Venha comigo!
E caminharam juntos, a alma penada e o maluco da cidade, para todo o sempre.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O torçal mágico





Regência Sabará era uma solteirona que vivia há anos em um apartamento de dois quartos no centro da cidade em companhia apenas de seus muitos livros e um gato velho e preguiçoso chamado Bilac. Deu-lhe o nome do escritor por ser o seu favorito, e quando percebeu que não se tratava de uma homenagem era tarde demais, pois o animal não atendia por nenhum outro nome que lhe dessem.


A doce senhora de mãos de fada e olhos negros ainda curiosos, acostumada aos livros como a amigos e companheiros, encontrou em seus guardados um torçal que havia esquecido dentro de um baú de viagens, fechado há pelo menos cinqüenta anos. Apesar do tempo que permaneceu guardado, o torçal parecia novinho em folha. Esquecida do motivo pelo qual guardara tão bem aquele objeto de beleza fantástica, Regência Sabará o amarrou inocentemente à cintura. Mal terminou de dar o nó, o apartamento girou ao seu redor e ela não soube explicar o que acontecia. Parou deitada num campo de margaridas, sentindo uma brisa suave soprar sobre seu corpo e estranhou alguns fios de cabelos castanhos caídos sobre seu rosto. Quando ergueu a mão para afastá-los, percebeu que eram seus e levantou de um salto. Olhou para seus braços e pernas, tocou seu rosto, o corpo também e, assustadoramente, constatou que havia voltado no tempo a uma época longínqua e maravilhosa. Com certeza tinha seus vinte anos de volta.


Ao invés de se apavorar como qualquer pessoa faria, alegrou-se tanto que começou a dançar; dançava tão divinamente que não sentia o chão sob os pés. Foi flutuando até o galho mais alto de uma árvore e observou a paisagem. Até onde sua visão poderia alcançar, havia colinas e vales, serpeados por riachos cristalinos e salpicados de animaizinhos minúsculos por causa da distância. Pensou em Bilac. Como será que ele estava agora? Levantara-se de seu tapete moradia? Sentira falta dela? Afastou os pensamentos rapidamente, temerosa de ser mandada de volta para o apartamento pequeno e solitário, seu lar há tantos anos. Pensou em como faria para chegar à beira de um dos rios, pois sentia sede. Foi só pensar que apareceu ao lado de um rio largo e tão profundo que suas águas eram bem escuras e as bolhas que o vento fazia na superfície, pareciam estrelas piscando para Regência, e cortinas balançavam tocando-lhe a face.


Cortinas?


Regência abriu os olhos e percebeu que se encontrava em seu apartamento, sentada em sua poltrona favorita, com Bilac no tapete à seus pés. A janela aberta deixava entrar um ventinho gostoso, e o céu da noite estava repleto de estrelas.


Caído no tapete ao lado do gato havia um livro. Abaixou-se, pegou-o e leu o título: O torçal mágico. Então sorriu e pensou:


“Foi isso afinal.”


segunda-feira, 26 de setembro de 2011









Ontem



Amarelinha

Cabra - cega

Pique – esconde

Pique – pega

Salada mista

Passa anel

Pipoca de tarde

Pula corda

Pique – alto

E bandeira

Telefone se fio

Batalha naval

Um futebolzinho

Sorvete aos sábados

Adedonha

Bola de gude

Olha a pipa

Avoada!

Algodão – doce

Bicicleta

Domingo na praça

Carrossel

E escorregador





Hoje



Acorda cedo

De madrugada

Faz a comida

Passa o café

Põe a mesa

Chama as crianças

Arruma para a escola

Toma banho

Vai para o trabalho

Almoça em marmita

Paga as contas:

IPTU

IPVA

Aluguel

Mercado

E tantas outras...

Leva criança para a cama

Conta uma história

Um filme na TV

Mas o sono chega



E sonha com um mundo

Que não existe mais.












Se eu soubesse o que seria de nós...






Entre nossas casas costumava haver uma ponte de estrelas, ainda as vejo, piscando, todas quase ao mesmo tempo, nas minhas lembranças malogradas. Por um instante penso em como foram parar lá, mas depois me lembro de que isso não importa. À época eu acreditava que fosse obra sua, não havia outra explicação para meu coração apaixonado. Sempre que me recordo de todas as surpresas que me fizestes, tenho todas guardadas no lugar das coisas mais valiosas do meu coração. Essa ponte de estrelas unia nossas casas nas noites de verão, quando nos encontrávamos debaixo de nossa árvore, e nos iluminava em direção ao lago que havia a poucos metros de nossos quintais enquanto corríamos nus, sentindo o ar gelado da noite, depois a água morna e o calor de nossos corpos. Era possível ouvir seu coração batendo incontrolavelmente, mesmo com o meu pulsando nas minhas orelhas. Só nós dois e o que sentíamos. Incrível como o tempo muda os sentimentos, soterra as emoções com outras mais recentes e menos nobres. Eu não acreditaria em nenhuma previsão de que perderíamos tudo aquilo. No entanto, perdemos.


Não me lembro muito bem do momento exato, talvez porque não tenha acontecido assim. Foi uma sucessão de fatos, de mágoas, de erros que cometemos. Sim, nós dois. Sei que te responsabilizei, mas hoje percebo o quanto contribuí para que o lago, as emoções, as estrelas ficassem para trás. Completamente. A última gentileza que fizemos foi nos separarmos. Depois, só ofensas e dor. Mas sempre me lembro do lago, de voltarmos exaustos e sorridentes, de no dia seguinte olharmos os beirais de nossas janelas procurando os bilhetes que trocávamos. A mangueira ainda tem nossos nomes tatuados dentro de um coração flechado. Ah, os clichês! Como éramos cretinos e imbecis! E como éramos felizes! Agora mesmo, nesse exato momento, tudo o que eu queria era encontrar a ponte de estrelas unindo nossas casas adolescentes, mas até os astros confirmam que nossa ponte foi derrubada. Só gostaria de sentir mais uma vez a euforia entorpecente da paixão desmesurada, escandalosa e autocentrada. Gostaria de dar adeus a toda essa prudência, a todo comedimento, a essa ninharia de sentimentos e me jogar daquela ponte em você.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Essa noite











Abra tua boca. Põe na minha a tua língua. Desliza teus dedos por minhas costas até minhas ancas efervescentes. Ultrapassa minhas fronteiras e se une a mim, definitiva e desesperadamente.

Dia típico na Rua Velha da Praça - um miniconto.






Diariamente Marília abre as janelas de casa de par em par, só para ver Heitor passar; mas o rapaz não se dá conta, porque tem os olhos voltados para Amanda, que varre a calçada de Dona Lola na esperança de trocar duas palavrinhas com Tadeu. E da praça, Juvenal observa.

A falta que você me faz.







Cresci nessas ruas magrelas, de chão batido e casinhas desbotadas. Vivia com os joelhos ralados, a poeira estancando o sangue. Mas acabaram-se as brincadeiras, você se foi e eu estou só. Quem irá estancar agora o sangue imaginário que escorre do meu corpo? Quem dará um fim à minha dor?

Carpideira







Enterrou dois maridos. Ficou tão bem no papel de viúva que decidiu entender o luto um pouco mais. Começou pelos velórios dos amigos, depois dos amigos destes, até tornar-se profissional. Hoje nos encontramos em um enterro e eu a ouvi rejeitar dois porque sua agenda está lotada.

Infância




A menina ia para a escola na garupa da bicicleta do avô. E ele era todo orgulho desfilando com sua neta-estudante. Hoje a bicicleta não existe mais, só os ensinamentos que o caminho para a escola imprimiram no caráter da menina, muito mais que os livros e cadernos.

Cena de Crime!






Estendido sobre o tapete da sala, mãos amarradas às costas, sangue sob o abdomem... Tão bonito enquanto o coração batia! Agora um amontoado de carne e horror que faz a gente não querer mais olhar. E sua privacidade tornou-se cena de crime!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Pra não dizer que não falei de vampiros...






Não tenha medo das palavras - um microconto


No ônibus para o centro - um microconto



O garoto entra e diz que vende jujuba, balas de hortelã e bananada, mas ninguém lhe dá ouvidos. Ninguém vê que deveria estar na escola, que suas roupas estão surradas e os pés sujos. Ninguém vê que sua alma pede abrigo e que se pudesse não estaria ali. O ignoram na esperança de que ele desapareça e elas possam continuar suas vidas vazias.

Sintonizados - Um microconto

- O que é que você gostaria de fazer hoje, amor?
- Não sei, talvez um cineminha...
- Que tal alugarmos um filme?
- Poderíamos ir a um bom restaurante!
- E se pedíssemos pizza?
- Ouvi falar de uma peça...
- Tem um jogão no outro canal mais tarde.
- Dá um beijo?
- Quem sabe uma rapidinha?!

Nostalgia - Um microconto




Sinto falta do teu corpo pressionado contra o meu. Há dias assim, nos quais me recordo de nossas noites insones. Há outros nos quais não consigo esquecer do teu cinismo. Ponho tudo em minha Balança para Avaliação de Importância e prefiro comer chocolates a continuar com saudades.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Chantagenzinha pseudo-romântica


Meu coração vai molemente dentro do táxi. Olho a paisagem, mas não vejo. Minha cabeça ainda esta naquela despedida, repassando cada gesto, cada palavra, tentando entender como fomos tão estúpidos. Seria possível voltar tudo até antes de nos perdermos? Seria mais que um desejo ingênuo tentar resgatar o que nos uniu? Gosto do movimento do carro, deslizando pelas ruas mortas desse domingo de Ramos. Gosto de não ser interrompida e peço ao motorista para dirigir sem rumo pela cidade fantasma, até que eu dê o sinal para me levar para casa novamente. Abro um pouco a janela para que o vento fresco toque meu rosto e seque minhas lágrimas. Odeio ar-condicionado. Não se pode chorar impunemente com o ar condicionado. O taxista olha de vez em quando pelo retrovisor e torce a cara. De que ele está reclamando? Vai ganhar uma nota pela corrida! Deixe-me em paz e dirija! Tenho direito a uma crise de choro depois do fim de um casamento de tanto tempo. Enquanto choro em movimento, ele arruma as malas e sai. Não quis ficar para vê-lo sair. Achei que se não visse seria como se não tivesse acontecido. Que sorte Melinda já estar casada! Que sorte?! Talvez isso mesmo tenha antecipado as coisas. A ausência de nossa filha alargou o buraco que foi se formando entre nós com o passar do tempo. No início do casamento as diferenças são um charme, depois de um tempo passam a ser o motivo pelo qual você questiona sua escolha. No dia seguinte ao casamento de nossa filha, ele passou a dormir no escritório e eu, na porta mendigando atenção. Isso não poderia ter dado certo, não é mesmo?  Quando Melinda soube levou um choque. – Ah mamãe, como isso foi acontecer? E eu querendo saber a mesma coisa.

- Motorista?

- Pois não, senhora.

- O senhor pode de me levar para casa agora.

- A senhora não acha melhor dar mais um tempo? Até para de... a senhora sabe... chorar?

- Ora, como ousa?

- Desculpe-me senhora, só quis ajudar.

 E agora essa! Só quis ajudar. Se ele quiser ajudar pode começar convencendo o Mauro a ficar. Ele nem sabe fazer as malas! Volto para minha casa a hora que eu bem entender. Sei que não deveria, mas quem sabe ele não desiste se me vir sofrer?! Quem sabe um pequeno escândalo? Só uma última humilhação! Se surtir efeito, que mal terá? Afinal de contas, Mauro sempre gostou de me humilhar um pouquinho. Tem um prazer sórdido em me ver desesperada por ele. Ou será que sou eu quem gosta de fazer o papel ridículo? Quem sabe a essa altura! Acho que já sei. Posso me oferecer para fazer as malas. Conversa vai, conversa vem, eu penso em alguma coisa. Talvez eu até passe um pouquinho mal. Acho que vou ligar para a Melinda. Ela sempre o comove com seu ideal de família unida. Ela sempre foi seu ponto fraco. Talvez não seja muito honesto de minha parte, mas vou chorar mais um pouquinho.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O Mequetrefe



Suave Formosura odiava seu nome até a raiz de seus cabelos. O motivo era óbvio para quem a conhecia: não possuía nada de suave, pois era a personificação dos desastres naturais, e, para piorar, pertencia a uma família de lindas mulheres e era a única desprovida de dotes físicos ou intelectuais. Recebeu das irmãs o apelido de Carrapicho, não por causa de seu cabelo liso e dourado, mas porque era indiscutivelmente indomável. Seu sonho sempre fora se mudar da pequena cidade em que morava com os pais e nove irmãos. Nenhum deles estudou muito e, logo cedo, ajudavam o pai na roça. Enquanto carregava a caminhonete da família de abacaxis ou cavava a terra com a enxada e sentia seus dedos arderem no constante contato com o cabo, Formosura se distraía com pensamentos de princesa raptada que aguardava o príncipe que a tiraria de uma vida sem aventuras; algumas vezes, tinha certeza de que, não fosse sua imaginação, jamais poderia suportar tanto trabalho e tanta pobreza.
Foi pensando nesse príncipe que resolveu não deixar a oportunidade passar quando a viu chegar de terno, gravata, e uma pasta preta de couro surrada. Seu nome era Juvenal Arantes Louzada. A estrutura física imponente, a pele morena e o peito largo e musculoso, não combinavam com o sorriso tímido e a indecisão dos olhos. Chegou de maneira inesperada para visitar os irmãos e chamou a atenção imediata de todas as meninas em idade de se casar e com sonhos de viver os romances que ouviam no rádio. À noitinha, todos os moradores tinham o costume de se reunir na Praça Vinte e Um de Outubro, e era de se esperar que o forasteiro não fugisse ao lugar comum. Olhos femininos perscrutavam tudo o que estivesse ao alcance de sua visão, procurando a novidade e uma oportunidade de travar amizade – o primeiro passo em direção ao altar. Juvenal, sujeito experiente e de propósitos questionáveis, teve a esperteza de não aparecer na primeira noite justamente com o intento de provocar entre as jovens a curiosidade que leva à imprudência. Passou assim, recluso, inclusive o sábado, dia internacional dos solteiros se reunirem.
No domingo pela manhã, quando a cidade se espreguiçava para espantar a cama das costas, Juvenal resolveu ir à padaria. O alvoroço foi geral. Cabeças ainda repletas de rolinhos apareceram por todos os lados, mãos delicadas destrancando as janelas eram seguidas de ombros que se empurravam para conseguir espaço e os risinhos se encontraram no ar para formar uma canção que embalava os passos convencidos do mequetrefe. No canto da boca levantado, via-se que Juvenal sabia que seu plano estava no caminho certo.
Desde esse dia, Juvenal começou a andar pela cidade com “ares” de homem sério, sempre bem arrumado e perfumado, vestido em terno de linho para não fugir do vulgar. Reunia-se com os homens da cidade para tratar de negócios e vendia terrenos na praia para os fazendeiros da região a preços bem abaixo do mercado. Às meninas dizia que possuía um excelente apartamento na Capital e que só estava ali porque as saudades da família o estavam deixando deprimido e precisava recobrar o ânimo. Prometeu-lhes uma vista para o mar e bailes todas as noites enquanto as transformava em mulheres sorridentes e desejosas do próximo encontro. Só não levou para o barracão abandonado às margens da Lagoa do Eremita, as senhoras, as crianças e Suave Formosura.
A menina parecia alheia ao desprezo que o rapaz lhe dispensava. Tinha os pensamentos voltados para Juvenal até quando dormia. Sua obsessão tornou-se o motivo de cada batida de seu coração, e como era de vontade inabalável, arrumou suas coisas e esperou. Sabia das cafajestagens de Juvenal e onde elas o levariam, ficou atenta para pegar a ocasião no voo.
Quando Doutor Diamantino voltou da Capital dizendo que não havia terreno nenhum à venda e que o cartório garantiu que os documentos de Juvenal não valiam absolutamente nada, os homens não puderam mais fazer vista grossa às intimidades de suas mulheres e filhas com o salafrário e empreenderam uma busca com a intenção de fazê-lo pedir perdão a Deus pessoalmente. Suave Formosura alcançou Juvenal antes de todos, contou-lhe o que se passava e o plano que tinha para fugirem dali. Juvenal não gostou nada do plural da frase, mas percebeu que se tratava daquelas situações nas quais é melhor ser contrariado que morto e seguiu Formosura. A menina o escondeu na caminhonete da família, entre as caixas do abacaxi colhido para a feira do dia seguinte. De madrugada, os dois empurraram o caminhão a uma distância segura e rumaram para a cidade mais próxima. Formosura deixou a caminhonete com um amigo de seu pai e pediu a ele que entregasse também um bilhete que explicaria tudo. Juvenal queria se ver livre da menina, mas saiu com a roupa do corpo e decidiu que a manteria por perto até que pudesse se virar sozinho novamente. Isso acabou se tornando impossível, pois Formosura agarrou-se a ele como uma sombra e fez-se necessária a cada instante até que Juvenal não soubesse mais viver sem ela.
O casal passou a viver de pequenos golpes e Formosura se mostrou ainda mais sem caráter que Juvenal, planejando desonestidades com o intuito de conquistar a admiração do cúmplice. Quando o tempo passou trazendo consigo os filhos desnutridos e adoentados, Formosura transformou-se no pior inimigo que Juvenal poderia ter e seus dias eram uma sucessão de miséria e brigas, que só paravam para encomendar mais uma boquinha que disputaria com os irmãos o peito da mãe e os carinhos do pai.
Apesar de amar os filhos com sinceridade, a convivência com a mulher passou a ser insuportável. Juvenal passava a maior parte do tempo fora de casa e não escondia de Formosura as inúmeras amantes que colecionava. Algumas vezes, ela mesma o buscava na casa de alguma vizinha, e não raro saía no tapa com as rivais.
Traída e humilhada, Formosura recorreu aos parentes e suplicou para que a aceitassem de volta. Seu pai, que nunca havia se conformado com sua ausência, mandou que Alma Celeste – a mais velha das irmãs – fosse ao encontro da pródiga para buscá-la.
Formosura combinou com Celeste que sua presença na casa deveria parecer uma visita de reconciliação, afinal, o marido jamais permitiria que ela fosse embora com os filhos. De acordo com o plano, quando ele saísse para o que chamava de trabalho, as mulheres poriam as crianças na caminhonete com algumas das tralhas que Formosura acreditava fazerem parte da partilha de bens e dariam adeus àquela vida esmolada para folgar no pequeno sítio da família, que agora parecia o paraíso para a filha ingrata.
Formosura sentia o coração bater descompassado de saudades dos irmãos, dos pais, e até dos abacaxis espinhentos que cresceu cultivando. Pensou que não suportaria passar ainda uma noite inteira na expectativa de se ver livre de um sonho malfadado, mas se deitou com angústias de se despedir do homem a quem deu seu coração, e quase tocou seu ombro para mendigar uma despedida decente. Pensou no que seria dele sem alguém que o amasse, e dormiu entre lágrimas que bem poderiam ser de tristeza ou alívio, - ela mesma não saberia precisar – para acordar poucas horas depois com os soluços da irmã no sofá da sala. Como Juvenal não estava ao seu lado na cama, soube de que mal Celeste sofria antes mesmo de entreabrir a porta e constatar que sua despedida havia sido dada à outra. Voltou para a cama com a tranqüilidade de quem já sabia o que fazer. Esperou que Juvenal voltasse e dormisse o sono dos satisfeitos, chamou a irmã e disse:
- Vamos agora.
Formosura pegou os filhos ainda dormindo enrolados em cobertores, deitou os mais velhos na carroceria da caminhonete e o bebezinho no colo da irmã no banco do carona, voltou para casa, pegou a faca mais afiada da cozinha e cortou a garganta do marido. Não parou para olhar, sequer lavou as mãos. Entrou na caminhonete e, quando Celeste lhe perguntou o que havia acontecido, respondeu suave como o próprio nome:
- Querida, você não ia querer que eu te mostrasse.

  







Se eu pudesse te falar...







Tinha quarenta e poucos anos e os cabelos já todos brancos. Magra, de ossos largos e um pouco mais alta que a média das mulheres. Os olhos azuis cinzentos eram cansados demais para sua idade. Guilhermina Gutierrez era uma mulher de costumes severos e exigia de si um pouco menos do que das outras pessoas: a perfeição e o impossível.
Quando jovem, "desencaminhou-se" com um rapaz muito bonito que a prometeu casamento, filhos, e uma casa bem grande num subúrbio carioca. Não teve qualquer uma dessas promessas cumpridas e, após alguns meses de namoro, viu-se sozinha com uma filha para cuidar. A menina foi entregue aos pais de Guilhermina assim que nasceu e foi criada como uma irmã mais nova da própria mãe. Chamava-se Cristina e era linda.
Guilhermina foi para o interior lecionar em um colégio de moças quando Cristina ainda era bem pequena. Torneou-se diretora com o passar do tempo e levava o colégio com a austeridade de um Chefe de Estado, recebendo dos pais das alunas a mais sincera confiança. Não admitia que as meninas tivessem tempo livre e ensinava-lhes francês e piano nos intervalos das aulas regulares. As meninas que não iam para casa nas férias, a diretora inculcava o latim, além de toda a sorte de prendas domésticas. Sua fama de exigente, porém, não lhe fazia justiça, pois também era dedicada e amorosa. Pensava que todas eram suas filhas  e as amava com devoção.
Um dia, recebeu o convite de casamento de sua menina, e não poder ocupar o lugar de mãe na cerimônia lhe doía como se ferros incandescentes lhe atravessassem o peito. Chorou durante toda a vida essa dor, mas sufocou-a como tantas outras no porão das lembranças infelizes.
Quinze anos se passaram e ela recebeu a neta como aluna. Esquecia-se de trata-la como sobrinha e a menina achava graça, atribuindo à idade, sem perceber que a senhora não era tão velha assim. Dona Mina, como passou a ser chamada no internato, realmente envelhecera demais para a idade, já não possuía a firmeza no porte que lhe fez parecer mais alta do que na verdade era, confundia o francês com o latim e não dava conta de vigiar as fugas das moças nas noites de festa na cidade. A vida monástica e a impossibilidade de expressar à filha todo o amor que havia para ela em seu coração acrescentaram dez anos a cada uma que vivia, e sentia-se como uma anciã pré-diluviana. A única coisa que a fazia remoçar era quando escovava os cabelos da neta e contava-lhe as aventuras da infância, passada numa pequena cidade, a sétima de doze irmãos. Relembrava as estripulias de menina e inventava finais diferentes para cada uma das histórias. E era como se as tivesse vivido assim.

Florentino Figueiras






Em frente a minha casa havia uma família composta de um pai e três filhas: Maria Violeta, Maria Rosa e Maria Hortênsia.  A mãe havia morrido há alguns anos e lhes cabia cuidar do pai e dos afazeres domésticos. Tinham entre 17 e 20 anos e a beleza das princesas imaginárias. Eu era apenas um menino de 13 anos, a cara cheia de espinhas, e morava com minha mãe a minha avó; só o que eu podia fazer era observar cada passo e cada gesto das Marias, dando especial atenção a Maria Hortênsia.
O problema é que eu não era o único; os meninos da rua dormiam e acordavam com os pensamentos tomados por aqueles passos de corças, aqueles rebolados de gata e o cheiro de flores que se desprendia das três irmãs. Sentávamos no muro de minha casa e observávamos enquanto varriam a calçada, regavam as plantas, estendiam as roupas ou sacudiam os tapetes. De tardezinha, sentavam-se as três na varanda, com suas cestinhas de vime ao lado; tiravam de dentro delas, cada uma o seu bordado e esperavam o pai chegar do trabalho. No verão, vendiam saladas de frutas e empadinhas de queijo, e eu gastava quase todo o dinheiro que ganhava como entregador de jornal, saboreando seus quitutes e pensando que suas mãos suaves tocaram aqueles alimentos. Era um fanatismo que me consumia por inteiro.
Assim foi se passando o tempo; A mais velha, Maria Violeta, casou-se no ano seguinte e se mudou para o norte do país em alguma cidadezinha às margens do Rio Negro, onde seu marido trabalhava como médico. Dois anos depois, contraiu febre amarela, e morreu sem deixar um filho que pudesse consolar a família. Maria Rosa, a do meio, ficou noiva de um sargento conhecido na cidade por seu temperamento violento e um forte vício no jogo que fez com que a morena lhe tivesse pena no lugar de amor. Sempre que bebia e se metia em confusão, mandava seu irmão mais novo explicar à menina os motivos de suas ausências. Eram tantas desculpas, e tantas explicações, que Fabrício, o cunhado, consolou Maria Rosa de todas as tristezas; de forma que, quando o sargento pegou 30 dias de detenção por alguma falta em sua conduta, Fabrício e Rosa fugiram da cidade para viver sua felicidade longe da fúria do noivo desdenhado e irmão traído. Esse, Quando soube do acontecido, jurou que mataria os dois se atrevessem a cruzar seu caminho novamente. Maria Rosa e Fabrício nunca mais puseram os pés em Açucena, e se comunicavam com a família através de cartas que Rosa mandava para Hortênsia, protegida sob a falsa identidade de Rosauro Aparecido, um irmão arranjado para seu pai. Soube, tempos depois por minha mãe, que o casal foragido teve três meninos e uma menina, a quem deram o nome de Violeta.
Na grande casa branca de janelas duplas pintadas de amarelo, só sobraram o velho pai e Maria Hortênsia – meu amor de juventude - quase não se via mais ninguém, e, a nova geração de moleques apelidou a casa de Assombro da Rua Calçada. Eu ainda olhava as grandes janelas na esperança de ver minha flor preferida, mas só via as luzes que se apagavam pontualmente às dez horas, e a casa lembrava vagamente o jardim de delícias que fora um dia.
Às vésperas de meu embarque para a Capital, onde eu me faria Bacharel em Direito como meu pai, ouvi meu nome seguido de três batidinhas leves na janela do quarto. Abri apreensivo e quase caí sentado com o que vi: Maria Hortênsia, me encarando com seus olhos de pantera, a boca carnuda brilhando, os cabelos soltos voando como plumas negras em torno de seu rosto. Senti o cheiro de flores vindo em minha direção como duas garras, entrando em meu peito e arrancando meu coração diante de meus olhos; procurei o chão com os pés, mas não havia nada; reuni as forças que ainda restavam e tentei falar, mas a voz não saía.
- Vai me convidar para entrar ou não? – ela disparou; e eu saí da frente da janela entorpecido como uma presa prestes a ser devorada.
Hortênsia sussurrou ao meu ouvido que tinha vindo me dar um presente de despedida. Disse que esperou durante anos que eu me declarasse e como não tomei atitude alguma, resolveu mandar o protocolo às favas, pois tinha certeza de que não me veria jamais depois que nos afastássemos. Passou os braços pelo meu pescoço e me fez homem ali mesmo, na minha pequena cama de solteiro, com a janela aberta e minha mãe no quarto ao lado. Saiu ainda de madrugada, me deu um último beijo e disse que não me esqueceria jamais. Eu, por minha vez, o coração apostando corrida com o vento, fiz promessas de amor eterno, e de que seríamos felizes para sempre depois que eu voltasse formado para buscá-la. Hortênsia saiu pela janela tão surpreendentemente como entrou, com a rapidez e precisão dos felinos, e eu fiquei ali, olhos pregados no teto, pensando que nunca mais seria tão feliz como naquela noite.
Fui para a Capital algumas horas depois e, diferente do que havia prometido, a lembrança de Maria Hortênsia se misturou no meu passado com as lembranças de outras Marias e outras mulheres; os anos se passaram soterrando os sentimentos debaixo de outros novos e de experiências que não sonhava viver na minha pequenina cidade, debaixo das saias da minha mãe ou de minha avó. Aos poucos fui perdendo o rapazote que sentava no muro e adorava as flores do jardim vizinho. Tornei-me doutor, casei-me e tive filhos. Vinte anos se passaram antes que eu voltasse a minha terra.
A ocasião que me levou de volta aos meus tempos de menino foi a notícia de que minha avó morrera. Dona Aurora tinha noventa e oito anos e uma saúde de ferro; no dia mesmo de sua partida fez o almoço, pois queria seu prato preferido: galinha à cabidela. Depois que comeu, deitou-se dizendo à filha que não a incomodasse até o entardecer. Quando minha mãe entrou no quarto e  viu-a dormindo com um leve sorriso na boca e a expressão dos ausentes, percebeu o que havia acontecido. Avisou-me quase que imediatamente e, em pouco tempo, eu e minha família nos colocamos a caminho de Açucena para velar aquela que fora minha segunda mãe.
Ao chegar à rua de meu passado, muitos sentimentos reacenderam em meu coração, mas me vi envolvido com os preparativos para o enterro, recebendo convidados, providenciando comida e bebida que acabava e, consolando minha pobre mãe que chorava sem trágua, que não pude dar atenção aos sentimentos confusos que me assaltaram. Ao voltarmos do Cemitério Municipal, sentamos à varanda para tomar o chá da tarde e colocar os assuntos em dia; conversávamos sobre as providências para a mudança de mamãe e a venda da casa da família, quando vi no jardim de Hortênsia um rapaz podando as árvores. Minha mãe percebeu onde meus olhos haviam parado e explicou;
- É Rafael, filho de Maria Hortênsia, mora sozinho na casa desde que a mãe morreu, há um ano. É um bom menino.
Ao som dessa notícia, meu corpo pesou como se eu tivesse mais de um século. Deitei a xícara na mesa do jardim, levantei-me e disse:
- Vou cumprimentar o rapaz.
Cruzei a rua com a impressão de ter os olhos de minha mãe cravados à nuca e uma sensação horrível de que algo estava errado. Cheguei ao portãozinho de ferro e chamei:
- Rapaz!
Ele desceu as escadinhas de pedra e se postou a minha frente: - Pois não?!
Só então pude ver seu rosto, e percebi que se parecia com a mãe em tudo, exceto nos olhos, que eram do mesmo azul dos meus. Isso não me deixou atordoado, pelo contrário, fez sentido dentro de mim imediatamente.
- Conheci sua mãe... vim para cumprimentá-lo...sinto muito – respondi, hesitante.
- Obrigado. Desculpe, eu conheço o senhor?
- Não. Desculpe-me você, eu devia ter me apresentado. Sou filho de dona Consuelo, estou aqui para o enterro de minha avó.
- Hum... já ouvi falar no senhor. Sinto muito pelo senhor também, dona Aurora era incrível. Meu nome é Rafael Dores, a seu dispor.
- Florentino Figueiras.

E conversamos sobre a doença de sua mãe e como nos conhecemos; ele me deu notícias da cidade e eu lhe falei sobre a Capital. Soube que pretendia fazer uma viagem pelo país para conhecer alguns lugares e convidei-o a ficar em minha casa quando fosse à Capital. Despedi-me com a certeza de que aquela noite em meu quarto tinha deixado muito mais que saudades, e a esperança de poder cumprir, no filho, a promessa feita à mãe, há tantos anos.