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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Dona Iolanda


Com apenas sete anos, a menina Iolanda viu um homem assassinar seu pai com três tiros pelas costas. Foi em frente ao armazém de seu Abílio, às oito da manhã, num domingo de sol escaldante, que fez com que os pezinhos da menina escorregassem dentro do sapato branco. A família voltava da missa caminhando até a casa da avó materna de Iolandinha. Tinham o costume de almoçar por lá todos os domingos, e só voltavam para casa depois do pôr-do-sol.


A partir daquele domingo cabal, tudo mudaria para a pequena, e a única coisa na qual conseguia pensar enquanto seu pai agonizava caído no chão de terra batida, era que não teria a oportunidade de entregar o desenho que fez dele sentado na cadeira da varanda contando histórias de lobisomens e bruxas más.


O pai de Iolandinha, Sr. Leopoldo Martinez, fora criado pelo avô paterno - juntamente com seus oito irmãos - e dele herdaram um amontoado de terras sem qualquer serventia para a agricultura. Como ele tinha sido o único a estudar, percebeu logo cedo que teimar com o terreno, exigindo dele que multiplicasse a cana-de-açúcar, seria um trabalho com os dias contados. Homem de negócios preferiu vender sua parte para a prefeitura fazer um cemitério. Ganhou um bom dinheiro, comprou uma casa espaçosa em um bairro um pouco mais distante do centro, onde seus filhos passaram a viver com liberdade. O restante do dinheiro investiu em imóveis na cidade e os alugava. Um deles era o armazém diante do qual havia de morrer poucos anos depois. Além do mais, era administrador da Estação Ferroviária, o que lhe rendia um bom salário. A decisão de Leopoldo criou uma ruptura entre ele e seus irmãos. Começou porque eles não aceitavam um cemitério como vizinho. As mulheres eram supersticiosas, mas os homens viram que o local perderia um pouco do valor de mercado; e ainda havia o orgulho.  Apesar de terem investido tudo o que possuíam na cultura da cana e de terem trabalhado duro, fracassaram como Leopoldo havia previsto e ficaram na miséria absoluta. Precisaram vender a propriedade por uma ninharia. O que lhes sobrou foi o suficiente para comprar um conjunto de casinhas que dividiam com mulheres e filhos. Pediram dinheiro a Leopoldo, mas depois de sucessivos fracassos o irmão não pode mais ajudar sem comprometer seu patrimônio. Ofereceu trabalho. Sentindo-se humilhados, falavam em matar o irmão quando se reuniam em festas e bebiam um pouco demais. Tanta conversa e tanto ódio incentivaram Jurandir, o filho mais velho de um dos irmãos do Sr. Leopoldo, a pegar a arma do pai no domingo pela manhã e atirar no tio com a frieza de quem chutava uma pedra do caminho.  Depois fugiu e desapareceu.


A mãe de Iolandinha, assustada com toda a tragédia que se abateu sobre sua família, vendeu suas posses e mudou com os filhos para Cabiceira do Rio Seco. Comprou um sobrado bonito às margens do rio Ité, antes do ponto das lavadeiras e terminou de criar seus filhos em paz. Infelizmente, dona Eduardina não entendia de finanças e até que seus filhos crescessem, foi gastando o dinheiro da herança, de forma que trabalhavam para comer quando Iolanda completou dezoito anos. Depois que Edgar, o mais velho, morreu de febre amarela aumentando a já enorme lista das vítimas da região, ficaram João, Iolanda e a mãe.


João arrumou um emprego como coveiro e constituiu família; Iolanda ficou em casa, cuidando da mãe até que ela morresse. Fazia alguns serviços de doméstica na cidade, mas mal dava para comer. Quando dona Eduardina morreu, Iolanda sentiu-se só e casou com um empregado da fábrica de cachaça que bebia mais que trabalhava. Antes de cinco anos de casada, pôs o traste para fora começou a alugar os quartos para moças de reputação duvidosa. Sem perceber, acabou dona do maior e mais bem frequentado bordel da região. Tinha seus casos, mas nunca se deitava com ninguém por dinheiro por ser orgulhosa demais para aceitar agrado de qualquer homem que fosse. A maioria do tempo ficava no salão térreo, conversando com os clientes e supervisionando o movimento das meninas. Quando resolvia jogar uma mão no pôquer, só continuava à mesa quem podia perder. Dificilmente se levantava do jogo sem antes levar pelo menos um homem à ruína.


A vida assim foi caminhando e sem perceber dona Iolanda se tornou querida e respeitada por todos na região, quando não por sua generosidade, com certeza por sua mão pesada e disposição masculina em entrar numa contenda. Gostava da vida que levava e das meninas como filhas, só não era feliz por completo porque ninguém o é. A imagem do pai ensangüentado e torto na calçada do armazém ainda a assombrava todas as noites em seus sonhos. Chegou a procurar pelo primo homicida durante anos, mas não obteve qualquer pista do miserável que acabou com sua família. Aceitou, por fim, que morreria sem poder vingar o pai e estava certa disso até o dia que foi chamada ao quarto de uma das meninas para acudir um cliente que convulsionava. Quando botou os olhos sobre aquele rosto contorcido e babado, percebeu imediatamente que se tratava de Jurandir, e só não caiu morta de susto porque preparara seu espírito durante anos para esse encontro.


Mandou chamar o médico que diagnosticou febre, tomou nota de todos os cuidados que deveria ter com o parente excomungado e não mediu esforços para salvá-lo daquele fim injusto para ela. Passados alguns dias, Jurandir recobrou a consciência e saiu do quadro mais grave. A menina que havia sido designada para revezar com dona Iolanda nos cuidados ao doente, desceu as escadas aos tropeções e avisou à dona da casa a vitória sobre a morte.


Iolanda sequer se abalou com a novidade. Olhando para ela não seria possível afirmar se estava feliz ou triste. Havia até certo ar de descaso na maneira como mexia a boca, mas os olhos brilhavam. Mandou que a menina ficasse em seu lugar na cozinha e foi até o quarto de Jurandir.


Quando fechou a porta atrás de si e encarou o homem não foi preciso se apresentar. Jurandir soube na hora que o dia do acerto de contas havia chegado. Tirou de debaixo do travesseiro a arma com a qual deu três tiros no tio e disse:


- Quero que seja com ela. – e passou para as mãos da prima.











 












Lucrecia Cristina






Quando descobriu que não lhe restou um centavo sequer após a morte do marido, dona Aureliana tratou de ensinar às filhas tudo o que podia para que fizessem bons casamentos e garantissem a sobrevivência da pequena família. Lucrecia, a mais velha, não possuía o menor traço de inteligência, mas era bonita o suficiente para atrair um bom partido se seguisse os conselhos da mãe. Eleonora, a caçula, possuía uma beleza rara e uma inteligência perversa, e só não conseguiria realizar os sonhos da mãe se teimasse em manter um comportamento ordinário, que era sua marca registrada.

Dona Aureliana começou a fazer uma pesquisa acurada dos possíveis pretendentes da região e soube que, com um pouco de sorte poderia não só sair da situação miserável na qual se encontrava, como se tornar uma senhora de respeito, apagando completamente seu passado de degradação junto a um marido fraco e sem sobrenome que não escondia de ninguém o fato de tê-la conhecido enquanto ainda trabalhava para dona Iolanda. Soube que bem perto dali, numa vila isolada entre as colinas do norte, na divisa entre Tornados e as Terras Esquecidas, havia um viúvo dono das terras da região, que procurava uma nova esposa para ajudá-lo na educação de seus três filhos. Dona Aureliana então vendeu sua casa, comprou roupas apresentáveis e dirigiu-se para as terras do senhor Alexandre Justino, decidida a fazê-lo casar-se com Lucrecia.

 Fez-se passar por uma senhora distinta que voltava de uma visita a uma prima doente e estava a caminho da Capital. Pediu a Alexandre hospedagem por alguns dias, pois não se sentia bem. Alexandre Justino, como o cavalheiro que era não permitiria jamais que uma senhora adoentada seguisse viagem, muito menos sem a presença de um homem. Hospedou as mulheres com alegria e jamais poderia imaginar a real intenção das desconhecidas. Dona Aureliana ardilosamente convenceu Lucrecia, que odiava crianças, a tratar com carinho os filhos de Alexandre de tal forma que ele acabou por fazer a proposta de casamento, comovido pela dedicação das mulheres aos seus três tesouros. Casou-se pouco tempo depois e, nos dez anos que se seguiram, a mulher se mostrou excelente esposa e madrasta.

Eleonora também se casou com um homem ainda mais rico que Alexandre, e levou sua mãe para morar com ela. Vinha muito raramente visitar Lucrecia, mas o suficiente para certificar-se de que tudo caminhava como deveria entre a irmã e o marido, e para estreitar o laço entre as duas famílias. Nessas ocasiões, Eleonora não conseguia esconder sua infelicidade. Seu marido era um homem experiente, e percebeu logo no início do casamento que se tratava de uma questão de sobrevivência ser mais esperto que a esposa. Após as bodas, passou a tratá-la com crueldade e desprezo, e só esteve com ela até gerar um herdeiro. Quase não se viam, pois ele passava a maior parte do tempo em um apartamento na cidade, onde mantinha uma amiga de quem gostava muito por poder confiar-lhe a vida.  Só mandava chamar a esposa quando precisava representar o teatro da família feliz, e Eleonora não sabia dizer que diferença havia entre ela ou qualquer dos objetos de decoração dos lugares que freqüentava. Sua tristeza era tanta que em poucos anos passou a ser uma caricatura da mulher que fora um dia; sua beleza murchou, parecia uma velha a quem esqueceram num asilo.

Lucrecia teve um pouco mais de sorte, pois se casou com um homem de coração puro, que a cobria de mimos, e só não a amava mais que a seus filhos. O amor que ele dedicava a Bernardo, Constância e Valentina era a pedra em seu sapato. Seu ódio se agravou quando descobriu que não poderia ter filhos. Sabia que teria que dividir a herança com os enteados quando o pai morresse e isso a afligia porque a maioria dos bens pertencia aos três irmãos por terem sido herança da mãe. Caso Alexandre a deixasse viúva, ficaria com pouquíssimas coisas e não podia aceitar esse fato.  O marido determinou em testamento que Lucrecia ficaria com a casa, mas as terras seriam dos filhos e eles ainda teriam o direito de morar junto à madrasta enquanto vivessem. Todos os outros bens pertenciam a Bernardo e as irmãs, o pai apenas os administrava desde a morte da primeira esposa. As casas na cidade, as jóias, uma fortuna em dinheiro, e todos os animais. No caso de morte de um dos herdeiros, os outros receberiam a herança. Lucrecia só perderia tudo se contraísse novas núpcias. Alexandre pensava que, assim, estaria resguardando a mulher caso ficasse viúva. O problema residia justamente aí, há alguns anos Lucrecia mantinha um caso secreto com um caminhoneiro que fazia o transporte das cargas da fazenda, e sonhava com o dia que estaria livre e rica para viver com seu verdadeiro amor. Obviamente, o testamento tornou seu sonho impossível de ser realizado enquanto os enteados vivessem.

Quando a Guerra Civil estourou e tanto Alexandre quanto Bernardo passaram anos longe de casa, Valentina e Constancia puderam ver quem realmente era a madrasta. Lucrecia as fazia trabalhar de sol a sol, não lhes permitia estudar ou ler, nem ter qualquer distração que não fosse o trabalho. Dava-lhes restos de comida para se alimentar, tirou-lhes todos os vestidos e as fez dormir com as empregadas para alugar os quartos aos soldados e ganhar algum dinheiro alegando que a casa lhe pertencia e precisava se precaver para alguma emergência. Com o tempo, a mulher enlouquecera. Uma noite, juntou todos os retratos da mãe dos enteados e ateou fogo. Enquanto a madeira estalava e as meninas choravam, Lucrecia ria e repetia sem parar que a saudade nos enfraquece. Fazia da perseguição às enteadas sua maior distração.

A guerra acabou pouco antes de completar sete anos e Bernardo foi mandado para casa com o pai muito doente. Lucrecia os recebeu com o cuidado fingido de antes e a fazenda voltou a funcionar como nos seus melhores tempos. Desdobrou-se em vigílias, mais pelo medo de ser desmascarada quando o marido recuperasse a saúde do que pelo temor que Alexandre morresse. Constância e Valentina contaram ao irmão tudo o que havia acontecido durante a ausência dos homens da casa. Bernardo chamou a madrasta para uma conversa definitiva. Lucrecia não viu outra saída a não ser a de se desculpar com os enteados, implorando, entre lágrimas, que considerassem que havia enlouquecido com a guerra e agiu impulsionada pelo medo que nunca foi bom conselheiro. Pediu que avaliassem todos os anos de afeto que viveram antes que a tragédia atingisse o país e lhes pegasse emprestado os homens da família, deixando-a com uma responsabilidade para a qual não estava preparada, finalmente, apelou para a generosidade dos enteados para que esse período tenebroso não fosse revelado a Alexandre. Bernardo não se deixou enganar, decidiu que a madrasta não era mais de confiança e avisou a ela que contaria ao pai tudo o que havia acontecido. Lucrecia tinha apenas o tempo necessário para que Alexandre estivesse forte o bastante para suportar tanta decepção.

Com ódio mortal dos enteados, a madrasta começou a planejar matá-los. Concluiu que só assim estaria livre de ser denunciada. Perguntou a mãe o que fazer e foi orientada por dona Aureliana a comprar dois bolos iguais e envenenar um para que os enteados comessem. O outro serviria para entregar a polícia caso desconfiassem do envenenamento e, assim, tirar de sobre ela qualquer suspeita.

No dia seguinte, Lucrecia fez como planejado e comprou os bolos e o veneno. Seguiu para casa ansiosa e satisfeita com a engenhosidade da mãe. Ao chegar à fazenda, subiu ao quarto de hóspedes para não ser surpreendida, injetou veneno no doce e foi para a cozinha confiante. Para saber a diferença entre os bolos, tirou uma lasca da cobertura do que estava envenenado.  Ordenou que o lanche fosse servido aos enteados e cometeu o erro de mandar a cozinheira guardar o outro bolo na despensa acreditando que assim ficaria ainda mais difícil imputar-lhe alguma culpa. Foi essa falha que determinou o rumo da história de Lucrecia.  Numa confusão, dessas naturais do movimento diário de uma casa, a empregada trocou os bolos e Bernardo, Constância e Valentina comeram até o último pedaço do que não estava envenenado. Quando foi ao quarto do pai para ficar no lugar da madrasta, Valentina comentou que não passava bem por ter exagerado no lanche. Lucrecia entendeu que havia obtido sucesso em seu plano e que agora se tratava de alguns minutos para finalmente ser rica e livre. Alexandre era apenas um detalhe. Todos acreditariam que morrera de desgosto ao receber a notícia do fim trágico dos filhos. Sem poder caber em si de felicidade, Lucrecia pediu à cozinheira que lhe servisse o bolo da despensa, que comeu com prazer, cheia de planos para o futuro. Em pouco tempo sentiu-se estranha e resolveu virar o prato do bolo. Encontrou a marca de seu dedo no glacê e desesperou-se, mas já era tarde. Depois de alguns minutos, Adalgisa, a cozinheira, ouviu um barulho de engasgo seguido pelo prato ao chão. Chegou à cozinha a tempo de ouvir a patroa dizer com dificuldade: Imprestável!




sábado, 27 de agosto de 2011

Carola


Foi como uma chuva grossa caindo na terra ardida que a paixão entrou na vida de Carola: a primeira vez! Sentiu-se encharcada de emoções que não conseguia identificar, só sabia que era terra fértil, insaciável, cheia de vida; o mundo ganhava aspectos antes nunca percebidos por ela. O vermelho não costumava ser assim, nem o amarelo, nem o tamanho dos prédios ou o rosto das pessoas. Aquilo ali é um passarinho?! Que lindo! 
A energia que habitava seu corpo agora não podia existir somente nos limites mortais de seus órgãos, ossos, poros. Queria ser eterna, grande, múltipla; como se tivesse sido picada por uma aranha radioativa ou que sua força descomunal viesse do sol tornou-se super. Estava quase convencida de que poderia qualquer coisa agora tamanha a força que explodia dentro dela e irradiava pelos membros, criando uma atmosfera de beleza e felicidade num raio de quilômetros até não se sabe onde: Carola amava Ciro. 
A intensidade, as juras, os planos, a sensação de que pertencia a alguém. Descobriu o próprio corpo e outro alheio ao seu, olhava para Ciro espantada, como se ele fosse seu coração batendo fora do corpo; a distância equivalia à morte. Não sabia ainda que a paixão é bicho solto, indômito e violento, que vaga pelos cumes dos montes e pelos mais profundos vales, torcendo os estômagos dos mais fortes e valentes, tirando-lhes o sossego, sorvendo largamente as forças que os mantém de pé. Carola não entendia o que lhe acontecia, e não se deve flertar com o desconhecido levianamente. Ignorava, a menina, que não se domestica a paixão, mas pode-se dosar a quantidade diária de uso. Como um lago onde mergulhamos devagar e gradativamente mais fundo, tateando seu chão com os dedos dos pés a procura de segurança, sentindo a temperatura da água, banhando-se no raso até que não haja dúvidas de que um primeiro mergulho, superficial e de reconhecimento, seja seguro. Depois, puxando um pouco mais de ar, sentir-se forte para conhecer as pedras mais próximas, a vida pertencente ao lugar, todas as mudanças de cor e sons submersos. Só então é que alguns, não todos, não mesmo, alguns fortes e de espíritos aventureiros, preparados para as grandes descobertas, é que sugam todo o ar que seus pulmões podem suportar e mergulham até as cavernas mais escondidas e perigosas. Há os que tentaram e jamais puderam voltar. Há os que se perderam e por lá ficaram, esquecidos do mundo da superfície. Há também os que não ousam mergulhar e desconhecem a beleza que só existe na profundidade, prendendo-se ao espelho d’água e a sua rasa complexidade.


Carola não teve medo, mas sua coragem não era a dos valentes, e sim a dos impetuosos e desavisados. Entregou-se desvairadamente a Ciro, tanto que não sabia mais dizer quem era, perdera a identidade. Sua ânsia de ser correspondida era tamanha que não devolvia ao amante o espaço ao qual ele se acostumara a viver, direito adquirido e resguardado pela Constituição. 
Estava sempre a um braço de distância do rapaz, como se um campo gravitacional os atraísse e a qualquer momento pudessem fundir os corpos, tornando-se uma mesma massa, disforme e inextricável. Bebia suas palavras, respirava o ar que expelia, tornou-se uma sombra, uma extensão do corpo de Ciro. Quando ele pensava em pegar um copo, o braço de Carola se estendia e o levava a boca, dando-lhe os goles, não de acordo com sua sede, mas com uma vagarosidade torturante de quem queria se fazer presente. 
Ela o banhava, o vestia, o penteava, olhando com olhos cada vez mais esbugalhados e penetrantes. Precisava tocá-lo incessantemente, como um cego reconhecendo o caminho. E seu desejo era tanto, que em pouco tempo não havia uma gota de energia em Ciro para suprir as necessidades tiranas e egoístas da moça.


Assustado com o monstro implacável com o qual passou a conviver, Ciro tentou desvencilhar-se alegando viagens a trabalho, doenças de familiares, dificuldades financeiras. Para tudo Carola tinha uma solução imediata e imperiosa, da qual não havia como fugir. 
Ciro apelou como pode, tentou fugir duas ou três vezes, mas Carola não dormia mais. Ligou para a polícia, contou para amigos, mas foi desacreditado por ela que afirmava que ele sofria dos nervos nos últimos tempos. Como último recurso, tentou ameaçá-la de tirar-lhe o que mais queria com uma faca atravessada ao próprio pescoço. Com a calma doente de quem tinha certeza de estar no controle da situação, Carola olhou para o espelho e disse:


- É inútil, amor. Eu te recrio quantas vezes for necessário, porque estás dentro de mim.        


A madrilena

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            


Se havia uma mulher de fibra na região de Cabeceira do Rio Seco seu nome era Úrsula Rodrigues. Seu aspecto já demonstrava seu temperamento prático e sua conhecida valentia; trazia os cabelos grisalhos curtos, batidos na nuca, não era magra nem gorda, mas de uma musculatura socada e rígida, debaixo da pele bronzeada por anos de trabalho em seu sítio. Falava com uma voz grave e rouca, e um leve sotaque espanhol, pois viera de Madri aos dezesseis anos com a família, a bordo de um navio cheio de gente e peste. O pai estava a caminho da cidade grande para trabalhar nas fábricas, mas parou em Cabeceira e nunca mais saiu da cidade. Arrumou emprego nas terras do Coronel Amaral que, com o passar dos anos, cedeu-lhe um pequeno pedaço com o qual fez um sítio. Úrsula era a filha única e aprendeu com o pai a nunca depender de homem algum. Foi para ele o mesmo que dez filhos homens, o que lhe deu a firmeza e o caráter que rendeu mais de um século após sua morte a fama de justa e verdadeira.

 Quando fez dezenove anos, Úrsula casou-se com Tomás Amaral, um dos filhos adotivos do Coronel. Deu-lhe nove filhos, todos homens, dos quais apenas quatro chegaram a idade adulta. Tomás, ao contrário da esposa, era um homem de sangue fraco, não suportava o trabalho fosse qual fosse, andava sempre às voltas de alguma dor ou doença inventada, e, quando era posto contra a parede, chorava e alegava que sofria dos nervos para não ser aborrecido.

Úrsula aprendeu a não dar ouvidos aos achaques do marido, suportava sua fraqueza por amor aos filhos e consideração ao Coronel.

Na mesma noite em que seu menino mais novo morreu de febre em seus braços, Úrsula recebeu o corpo do marido, trazido pelos amigos de bebedeira, vindos da casa de dona Iolanda. Parece que ele decidiu que não viveria mais sem a menina Vânia, a russa amazona, chamada assim por montar em seus parceiros de noitada de botas, esporas e chicote, pois sua especialidade era dominar. Pegou o próprio cinto e afivelou o pescoço nos caibros do teto até seu coração parar. Vânia assistiu a tudo sentada na cama, achando que fosse brincadeira, e que Tomás só estivesse com ciúmes pueris de seu casamento e futura partida. Quando percebeu que era tarde demais, chamou os amigos do homem, que o retiraram de lá, o vestiram e o levaram para a esposa. Úrsula velou pai e filho pelo resto da noite e, no dia seguinte, antes de fechar os caixões, deu um beijo na testa do filho, e, ao marido sussurrou:

- Que grande bosta você me foi!

Assim Úrsula enterrou-se na viuvez aos trinta e cinco anos, e consolou-se no trabalho com mais vontade ainda nas terras de seus pais. Viu, com o passar dos anos, os filhos casarem e partirem um a um, deixando-a na companhia de seus bichos e seu trabalho.

Quando completou oitenta anos, Úrsula ainda possuía a disposição de um guerreiro persa, e sua rotina não havia alterado em quase nada. Vivia do que plantava, mas depois de sucessivas enchentes, separadas umas das outras por períodos longos de seca, sua produção era escassa e mal dava para alimentá-la. Numa das épocas de grandes chuvas, no exato momento em que seu relógio anunciou meio-dia, e o céu um breve período de trégua, Úrsula ouviu a sua porta, batidas claramente masculinas. Pode perceber a altura e o peso do visitante antes mesmo de lhe abrir a casa, tal era a transparência de seus toques.

- Dia!

- Buenos!

- Desculpe-me incomodá-la senhora, mas estou procurando um lugar onde possa trabalhar por um período em troca de comida. Estou exausto de viagens e, no caminho para cá não encontrei quem me desse um gole d’água. Tenho força nas mãos e a disposição de um cavalo, em troca de comida e um lugar para ficar posso trabalhar quase sem descanso.

Úrsula apertou seus olhinhos cansados e perscrutou o rapaz a sua frente; calculou que ele não tivesse muito mais que trinta anos, a voz possuía a firmeza dos que falam a verdade, mas sua pele era clara demais para a de um trabalhador braçal. Os cabelos castanhos precisavam de corte, e a barba indicava uns três meses sem ver a lâmina. Tinha, aproximadamente, dois metros e uns cem quilos bem pesados.

- Sente-se nos degraus da varanda, eu já volto.

Úrsula foi até a cozinha e voltou pouco depois com um prato farto de comida e uma garrafa de água fresca.

- Eu tinha acabado de fazer o almoço quando você chegou. Coma tranquilo, quando terminar conversamos.

- Obrigado.

- Qual é o seu nome peão?

- Graciano, seu servo.

- Vou passar um café para acompanhar a prosa, espere aqui.

O rapaz bebeu primeiro a água, pois estava com a sede de um dia inteiro, e enquanto comia, contava para Úrsula como entendia de plantações por ter trabalhado nas mais diversas funções na lida da terra em tantos lugares diferentes, que conhecia os climas e o que se adapta melhor a cada um deles. Combinaram que Graciano ficaria ali para realizar as tarefas mais pesadas, e não falaram nada sobre o tempo de permanência. Ambos possuíam almas livres e, se a um fosse difícil se fixar em qualquer lugar, à outra, a menor indicação de cárcere dava-lhe borbulhas no sangue.

Com o passar do tempo, Úrsula percebeu que as coisas mudavam rapidamente em suas terras. Primeiro a aridez e infertilidade do solo deu lugar a um terreno fértil, produto das chuvas constantes e equilibradas, raríssimas na região, e do trabalho diligente do ajudante misterioso. Depois as galinhas começaram a botar ovos quatro vezes ao dia, e as vacas não paravam de esguichar leite pelas tetas brilhantes de tão esticadas. Até Lilica, a cachorrinha, apareceu prenha, apesar de Sherlock ter mais de vinte anos, uma idade avançada para qualquer cachorro. Em um tempo absurdamente curto, pés de manga, jaca, banana, laranja, apareceram apinhados, e eram tantas as frutas e reapareciam tão rápido, que não se podia sentar um minuto no pequeno sítio. Os aipins pulavam da terra tão fortes e macios, que pessoas vinham de longe comprá-los.
Graciano não parava de trabalhar. Dormia tarde e acordava cedo e, além dos cuidados com a terra e os animais, também comercializava os produtos na cidade com a velha caminhonete que ele mesmo consertou. Quando voltava, preparava tudo para o dia seguinte e ajudava Úrsula com os clientes que chegavam sem parar. À noite, pessoas da redondeza vinham ouvir a viola do moço e, quando o frio baixava, tomavam uma aguardente para aquecer o corpo. Úrsula gostava de cantar com a voz fraquinha as melodias castelhanas que lembravam sua infância. A alegria era tanta, que não viam o tempo passar, e não foram poucas as vezes que emendaram a noite de festa num dia inteiro de trabalho pesado.

Aos poucos Úrsula foi percebendo que o milagre da terra também alterava a ela mesma. Um dia acordou e teve a impressão de que sua pele parecia mais esticada e viçosa, e nos cabelos apareceram fios castanhos. Percebeu que remoçava lentamente, e notou as coxas engrossarem e os olhos voltarem a enxergar sem a ajuda dos óculos; sua voz não mais tremia e, seus braços, a força da juventude.

Ao fim de oito anos, acordou com a mesma idade de Graciano, e ficou maravilhada com as possibilidades que se descortinavam a sua frente. Não teve dúvidas de que aquele fenômeno estivesse intimamente relacionado ao seu hóspede especial. Levantou-se da cama e olhou pela janela, o sol ainda não havia saído e todo o sítio repousava mergulhado em silêncio. Ao redor, tudo seguia o curso normal, só dentro de seus portões o sobrenatural tinha liberdade para acontecer. Debaixo das mangueiras, enrolado dentro de uma rede, Graciano dormia como um inocente. Úrsula jogou a manta de lã sobre os ombros e foi ao encontro do jovem. No caminho, parou diante do espelho e contemplou mais uma vez seu reflexo impressionante. Atravessou a porta da frente decidida, caminhou pela varanda lateral em direção ao pomar, e desceu as escadas colocando-se ao lado do moço. Graciano abriu os olhos e a rede, e recebeu com um largo sorriso a mulher que, pacientemente, aguardou até que estivesse pronta.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  


O Apuana*




Na pequena cidade de Redenção, esquecido entre pacotes e envelopes, vivia um homem franzino de olhos lacrimosos, que um dia fora considerado poeta, mas que as contas da casa e a força indiscutível do tempo transformaram em mensageiro por necessidade. Seu nome era José Antonino, mas atendia pela alcunha de Zé Apuana. Esse apelido quem lhe deu foi um índio velho, amigo de seu avô, quando viu o menino de dezesseis anos correndo de um lado para o outro, levando e trazendo mensagens, tanto entre os moradores de Redenção, quanto das cidades vizinhas.


Zé Apuana cobrava de vinte a setenta centavos, de acordo com a distância, a urgência e a importância das correspondências. Em sua casa mantinha papéis de cartas, selos, lacres de cera, canetas, caixas, envelopes e pacotes de todas as cores e formatos que não havia como um cliente sair insatisfeito. Vivia modestamente com a esposa, Amparo, e as filhas: Socorro e Consolação. As três eram a razão de sua existência, mas também motivo de constante preocupação. Apesar de serem virtuosas e extremamente dedicadas a lhe fazer feliz, não havia mulheres mais belas e atraentes de que se ouvisse falar, por isso, muito comumente a cidade recebia visitantes do mundo inteiro levados pelos rumores de que sereias abandonaram a vida marítima e viviam em Redenção, escondidas do assédio popular. Quando isso acontecia, a cidade se solidarizava com o mensageiro e amigo, e todos se uniam para dar informações falsas aos viajantes, de forma que a casa de pedra nas encostas da Montanha Rochosa jamais era encontrada.


Amparo cuidava de sua família como se tivesse nascido unicamente para isso. No passado, havia sido uma moça formosa e não faltaram pretendentes afortunados que lhe fizessem propostas de torná-la rainha de castelos medievais; mesmo hoje, com duas filhas moças, sua beleza podia fazer um homem se esquecer de respirar. Mas recusou todos eles porque desde os doze anos sabia com quem se casaria e a vida que teria, pois um sonho lhe revelara tudo. Esperou pacientemente que Zé Apuana fosse levado até ela por uma mensagem de nascimento de uma prima distante. Já estava com as roupinhas dobradas dentro de uma trouxinha de pano quando Apuana bateu à porta de sua casa, desceu então as escadinhas de madeira até a cozinha e disse à mãe:


- É ele o rapaz de quem lhe falei... – virou-se para ele e explicou - ... vou com você e serei sua mulher.


Zé Apuana não questionou porque teve a certeza de que estava diante da sorte em pessoa, colocou a trouxinha da moça sobre as costas e partiram para a maior das aventuras. No ano seguinte lhes nasceu Socorro, seguida de Consolação em menos de um ano. Amparo dirigiu-se ao marido com sua costumeira forma de noticiar e avisou:


- Estas serão as únicas herdeiras que te darei.


Apuana, que já havia aprendido a levar a mulher a sério, sorriu satisfeito por ter tanta sorte. Viviam num mundo à parte, construído com algum esforço por Amparo, na tentativa de preservar a família da maldade alheia, e de um pressentimento ruim que ela tinha certeza de que os rondava.Sentia que tanta felicidade desequilibrava o curso natural da vida e temia pelo dia em que sua família fosse alcançada por alguma tragédia.


As filhas eram duas dádivas dos Céus. Socorro era responsável por tudo o que a casa produzia: plantava verduras, legumes e frutas e os vendia no mercadinho de seu Januário; engordava porcos para abatê-los em dezembro e criava galinhas para tirar-lhes os ovos. Antes que qualquer pessoa da casa estivesse de pé, já havia tirado leite da vaca e posto para ferver, dado comida aos bichos e aguado as plantas. Consolação lavava e passava roupa para as famílias da região; também fazia os partos da redondeza, ofício aprendido com a índia Jacira quando esta ainda respondia pelos nascimentos do povo do lugar. A família vivia assim, uma vida boa, apesar de simples, e não reclamavam de nada que pudesse lhes faltar.


Numa tarde de ventos fortes – mau sinal, de acordo com Amparo – Zé Apuana voltou da cidade acompanhado de um rapaz que estava com a cabeça e o braço enfaixados. Na tentativa de livrar Apuana de um bando de assaltantes, fora violentamente atropelado por um cavalo ao se colocar entre o mensageiro e o bicho. Os quatro parentes estavam em dívida com o rapaz, e as mulheres, depois que se refizeram do susto, agradeceram de olhos marejados. Serviram-lhe comida enquanto Consolação arrumava seu quarto para hospedar o estranho e carregava suas coisinhas para o quarto da irmã. Prepararam um banho quente para o rapaz e Amparo o ajudou a se lavar, pois as filhas ainda não tinham visto um homem nu. Antes que ele se recolhesse para o quarto, Socorro dirigiu-lhe a palavra:


- Como é mesmo seu nome moço?


- Rafael. Rafael Dores ao vosso dispor – e lançou um olhar às moças que as fez pensar que estavam diante de um anjo, tamanha doçura.


Os dias se passaram e a família foi se acostumando à presença de Rafael, e Zé Apuana se afeiçoou a ele como a um filho. Quando melhorou consideravelmente, já não queriam que fosse embora. Apuana sentava-se com Rafael para jogar xadrez, que sempre foi uma grande paixão para o mensageiro; o rapaz ajudava nas entregas e buscava os recados nos lugares mais próximos, fazia o serviço mais pesado da casa e acompanhava as meninas à cidade sempre que necessário. Não pedia absolutamente nada em troca e até esqueceu-se um pouco de seu desejo de viajar pelo mundo.


A única a tratá-lo com reservas era Amparo, que começou a desconfiar de uma cumplicidade entre Rafael e suas filhas, e isso a estava incomodando. Teve a impressão de flagrar olhares e sinais, achou-as mais alegres e femininas, percebeu que se distraíam de suas obrigações e não acordavam tão cedo como era de costume. Para agravar suas desconfianças, não encontrou as meninas na cama quando levantou para beber água de madrugada por três noites consecutivas. Concluiu então, que a desgraça e a vergonha tinham finalmente alcançado sua família como temia, e que suas filhas estavam corrompidas apesar de seu esforço em tentar afastá-las da maldade do mundo. Amaldiçoou o dia em que Rafael cruzou o caminho de seu marido e perdeu a calma ao pensar nas feições angelicais do moço e de como se aproveitou da confiança de Apuana para lhe roubar das filhas a inocência e encher suas cabecinhas de safadezas. Lembrou-se de sua infância triste, quando era abusada por um amigo da família, e de como desconfiaram dela quando pediu, desesperada, ajuda aos pais para livrar-se de seu tormento. Tentou se esquecer de tudo e refazer sua vida, protegendo-se do mal afastada das pessoas numa vida idealizada. Sabia que a felicidade não dura eternamente e que chegaria a hora do acerto de contas. Mas isso ela não poderia suportar, suas filhas jamais passariam pelo que ela passou. Ela estava atenta e tomaria qualquer atitude que protegesse suas meninas. Quando o sol saiu de trás das montanhas seus olhos não viram a luz porque estava cega de ódio. Exigiu de Apuana que mandasse Rafael embora, fazendo-o escolher entre os dois. Não deu qualquer explicação, e a todos pareceu uma crise de ciúmes pela falta do filho que não pode dar ao marido. Apuana tentou argumentar, Rafael ainda não estava totalmente recuperado e ainda havia a ameaça dos assaltantes que juraram vingança. Nada fez com que Amparo mudasse de idéia. Rafael deixou o tabuleiro, prometendo jogar quando se encontrassem novamente pelas estradas da vida. Os dois amigos se abraçaram e se despediram entre lágrimas.


Uma semana depois, Consolação chegou à casa aos gritos com a notícia de que os moradores de Tornados receberam a visita de um rapaz com a descrição de Rafael. Ao que parece, ele reconheceu alguns bandidos que tentaram assaltar Apuana, e fora reconhecido por eles, que logo exigiram vingança. Rafael tentou sair da vila, mas foi capturado, torturado e morto. Seu corpo despedaçado foi enterrado no cemitério de Açucena.


Apuana saiu desembestado para confirmar a história com esperança de que fosse um mal entendido horrível. Amparo, golpeada pela culpa, responsabilizou as filhas. Disse-lhes que sabia de tudo e que se não tivessem agido levianamente, não precisaria ter mandado o rapaz embora. Foi Socorro que mandou que a mãe se calasse e falou:


- Você está enganada, mulher! Rafael nos ajudava a preparar uma surpresa para o pai. Sabemos de sua paixão pelo xadrez, que ele não tinha com quem jogar, e pedimos que Rafael nos ensinasse para jogarmos no dia de seu aniversário. Só não te falamos nada porque você nunca soube guardar segredos do papai.  Usávamos a madrugada para não levantarmos suspeitas. Rafael sempre nos tratou com respeito e nos tinha como irmãs.


- Mãe, - completou Consolação – o que a senhora fez?!


Amparo levou as mãos à cabeça, o desespero invadiu-lhe a alma. Virou-se para as filhas e desabafou:


- Sempre soube meninas, que a desgraça nos alcançaria, mas jamais poderia imaginar que, apesar de todo o meu esforço para evitar que isso acontecesse, eu mesma lhe abriria as portas de minha casa.



*aquele que corre.

O saxofonista do Padre Elpídio



Querêncio sempre fora um rapaz estranho. Seu aparecimento na cidade de Poço das Almas já predizia que sua vida não seria como a das outras pessoas. Na mesma noite em que um meteoro cortou o céu e caiu nas terras dos ciganos abrindo um buraco no chão onde cabiam umas cinquenta pessoas, um bebezinho foi achado chorando a apenas alguns metros de distância do evento apocalíptico. Tinha os olhos negros dos pumas, os cabelos pretos espessos e lisos, a pele morena e uma marca de nascença que lembrava um pequeno mapa na bochecha; estava enrolado em panos limpos e carregava um bilhete com o que parecia ser seu nome, mas numa língua desconhecida de todos na cidade. Foi levado para o orfanato do padre Elpídio e ele batizou o bebê com o nome de Querêncio da Hora. Cresceu com os outros meninos do abrigo, tendo por único pai a figura bondosa do velho padre.


Aos dezesseis anos, quando foi mandado à Cabiceira do Rio Seco buscar um médico para cuidar de dois internos que haviam contraído malária, desapareceu. Procuraram por quase um ano na cidade e nos arredores, até que o padre desistiu e entendeu que o tempo de Querêncio não lhe pertencia.


Passaram-se quinze anos antes que Querêncio retornasse a Poço das Almas, dessa vez de forma bem discreta. Instalou-se numa casinha de pau-a-pique perto do rio e passou a fazer visitas periódicas ao cemitério atrás da igreja para colocar cravos brancos no túmulo do padre. Ninguém sabia do que vivia o que havia acontecido nos anos que passou desaparecido ou o que o tinha feito voltar. Só o que sabiam era o que se falava nas barbearias e nos botecos, nas reuniões de família e nos bancos das praças: que Querêncio havia surgido misteriosamente, trazido pelo meteoro, e que não era humano, mas uma criatura do outro mundo.


Os hábitos do homem não ajudavam a desmistificar o conceito que formaram a seu respeito. Querêncio permanecia recluso a maior parte do tempo e, nas raras vezes que deixava sua casa, só o fazia à noite; sempre ia ao cemitério, ou subia nas colinas para tocar em seu saxofone melodias encantadas que ele mesmo compunha.


Um ano depois de seu retorno, coisas estranhas começaram a acontecer. Primeiro, os animais das fazendas da região amanheciam mortos sem qualquer sinal que pudesse indicar a causa; depois, alguns incêndios e o desaparecimento de três pescadores numa noite de lua cheia.


Os moradores associaram a Querêncio os fenômenos sobrenaturais que atingiram a cidade e, suas suspeitas se agravaram quando souberam que um menino apareceu morto a apenas dez metros do chalé onde o misterioso homem morava. Quem viu relatou que, ao lado do corpinho do menino foi encontrada a palheta de um saxofone, e não precisaram de mais provas. Dirigiram-se ao chalé, mas não havia sinal do facínora, puseram fogo em tudo e dividiram-se em grupos para tentar capturar o homem e pôr um fim aquele desespero que tomou conta das mulheres e crianças. O delegado disse que o queria vivo, pois viu na ocasião a oportunidade de se autopromover, mas a histeria tomou conta das pessoas de tal forma que ele não confiava muito na sorte de poder utilizar a captura a seu favor.


À meia noite do segundo dia de caçada, o céu tornou-se ígneo e todos puderam ver uma bola incandescente sair de onde havia o buraco do meteoro e cortar as nuvens escuras em direção ao infinito. Ao chegarem ao local do buraco, era como se ele nunca houvesse existido e, bem no centro de onde deveria estar, acharam o saxofone e um ramo de cravos brancos. Todos retornaram às casas, aliviados, pois acreditavam que Querêncio havia voltado para o lugar de onde viera quando ainda era um bebê. Sentiram-se em segurança e a felicidade podia ser vista estampada nos rostos de cada um. O prefeito fez um anúncio extraordinário de sua varanda, declarando aquele dia como feriado municipal; mas, quando as luzes se apagaram e cada um se encontrava deitado em sua cama, ouviu-se, ao longe, o som do saxofone executando as músicas já tão conhecidas. Um arrepio percorreu o corpo de cada morador, os mais fracos sentiram o sangue lhes congelar nas veias, enquanto os pobres animais se agitavam. No céu, três bolas de fogo cruzavam em direção à mata.


Mariliz



Maria Olívia Fernandes, a Mariliz, mora em um apartamento à beira-mar há exatos sessenta anos, mas é bom que se diga que nem sempre fora assim.


Aos dezessete anos fugiu de casa com o primeiro namorado para nunca mais voltar. Deixava para trás um pai castrador, a madrasta perseguidora, e um bando de irmãs ainda pequeninas, já muito parecidas com a mãe para se salvarem. Não se arrependeu. É bem verdade que o namorado era um fraco e, pouco tempo depois correu para os braços da mãe, deixando Mariliz sozinha. A solidão da menina não durou muito, não era o tipo que chora o passado e o dia de ontem já estava longe para ela; vivia o presente com a propriedade de uma Massai, sem nunca ter ouvido falar desta tribo africana. Apaixonou-se de um rapaz de sentimentos puros e caráter templário, e foram felizes durante a eternidade dos dez meses que passaram juntos, até que a curiosidade da menina estivesse satisfeita. Seis meses depois do fim deste relacionamento, Mariliz estava casada com o primeiro dos dois amores que de fato teve. Entregou-se ao marido com o desespero dos famintos, e amou pela primeira vez, achando divertidas as agonias dos apaixonados. Meses depois, o marido disse-lhe que precisava sair para comprar cigarros e ela desconfiou de que fosse uma despedida, pois o infeliz nunca na vida havia fumado. Também não acreditava que ele seria tão pateticamente óbvio. Chorou por dois dias seguidos, após os quais, levantou-se e jogou fora todas as coisas do miserável, como passou a chamá-lo. Pintou as paredes do apartamento que ele deixou e, desde então possui o mesmo endereço.


Por um tempo, Mariliz fez passar por sua cama uma infinidade de homens dos mais variados tamanhos, pesos, cores, cheiros, manias... até que percebeu que não se vingava do ex marido, mas de si mesma. Anos depois, ao se lembrar dessa fase da vida, dizia que poderia tê-la apagado da memória, não fosse o vazio profundo que a atormentou e marcou o período como tatuagem sobre a testa.


Quatro anos se passaram na mais completa solidão, até que Mariliz abriu-se para a segunda melhor experiência de sua vida; e, às vezes, pensa que talvez tenha sido a única.


Conheceu Aníbal durante uma das muitas reuniões que deu em sua casa para os amigos e amigos dos amigos, artistas e pessoas medíocres, eufóricos e neurastênicos... um grupo tão divergente que era impressionante que ainda se reunissem quinze anos depois da primeira vez, só por possuírem em comum a amizade velha e folgada que Mariliz oferecia a todos, sem distinção. Adormecida sobre o sofá da sala, Maria Olívia sentiu os braços fortes e o cheiro de livros e menta que se desprendia do homem que a segurava no colo e a levava para a cama. Ainda bêbada de sono, deixou-se despir, e só acordou quando Aníbal lhe beijava os peitos e afastava suas pernas para colocar a mão em seu sexo e prepará-la para recebê-lo. Surpresa por experimentar o prazer pela primeira vez e, com raiva dos tantos homens que teve e que não souberam dar esse arrepio em ondas que começava no centro do corpo e irradiava para as extremidades, eriçando-lhe os pelos e enfraquecendo-lhe as pernas. Amou-o por isso e muito mais, e viveram os dias mais felizes e os mais infelizes juntos. Mas o tempo, esse algoz que põe fim a tudo, afastou-os como a dois estranhos, como se tudo entre eles não tivesse o valor de um olhar entre dois desconhecidos que se cruzam ao atravessar uma rua. E se perderam.


Mariliz, como era de se esperar, sacudiu a poeira da tristeza de sobre o corpo mais rápido do que ela mesma poderia supor; continuou a receber seus amigos e os amigos deles em seu apartamento, onde agora ouvem as músicas dos filhos dos que cantavam antigamente. Nas tardes de chuva grossa, senta-se à varanda e lê, pela milionésima vez, O amor nos tempos do cólera, e sente em seu peito que nunca foi Fermina, seu papel é o de Florentino. Olha para o mar a sua frente, e sonha com um navio bem grande, onde caibam seus amores e ela, velha e sorridente, a bailar entre eles.







Isadora Carmesim



O prédio da rua 1º de Agosto tinha um aspecto de velho e sujo que destoava das construções vizinhas. Ficava exatamente no centro do quarteirão, na área que antes pertencia aos novos ricos; era ladeado por casas de arquitetura nova, o que deixava claro que ele era a única parte não reformada de um conjunto de casas e prédios concedidos pelo governo aos imigrantes que lutaram ao lado do poder pela consolidação do Regime Republicano. A maioria dos moradores era composta de mulheres gordas e falastronas; seus maridos, ao contrário, eram macilentos e cansados, de corpos curvados e olhos encovados, a maioria com a cara de espanto que as guerras conferem às pessoas. Os filhos deles, crianças coradas e sorridentes, ou adolescentes calados, de hábitos estranhos aos pais e que andavam em bandos pelas ruas do bairro sem uma ocupação depois da escola. A única exceção aos moradores do “prédio dos poetas”, assim chamado por ter sido reduto dos domadores de versos e da boemia do século anterior, era Isadora Carmesim.


Dorinha, – como era conhecida a mulher do Tenente Paiva – tinha a beleza sedutora das fêmeas que conhecem o amor; trazia os cabelos castanhos claros soltos em cachos na altura dos ombros, os vestidos escuros contrastavam com a pele de alabastro, e eram tão justos que evidenciavam cada medida perfeita do corpo da jovem. As pernas lembravam duas torres que, unidas, guardavam em seu topo os segredos que fariam qualquer rei entregar o trono, mas no rosto, apesar dos olhos castanhos que, uma vez postos sobre alguma criatura prendiam-na de tal modo que ficava à mercê dos maiores perigos, a tristeza se hospedou como quem não fosse mais embora, levando-lhe o sorriso sincero de quando se mudou para ali.  Uma vez por mês, no aniversário de casamento, Dorinha colocava seu melhor vestido vermelho e se sentava à mesinha da varanda imaginando-se acompanhada do marido. Havia anos que a guerra acabara e o Tenente desaparecera a caminho de casa. Isso foi para Isadora pior que receber o corpo do marido morto como tantas outras a sua volta, e ela esperava todos os dias por uma notícia, qualquer que fosse que a tirasse daquele suspense constante. Por nunca ter conseguido provar que o marido de fato morrera Dorinha não pode jamais receber uma pensão.  Para sobreviver passou a fazer doces e bolos para festas, e era tão requisitada que as encomendas precisavam ser feitas com três meses de antecedência. As crianças da vizinhança costumavam acompanhá-la quando passava pela rua para sentir o perfume de chocolate que exalava da mulher e, não raro, ela distribuía bombonzinhos que tirava da bolsa.


Na manhã do décimo sexto aniversário de desaparecimento do Tenente Paiva, Dorinha recebeu flores, uma garrafa de seu vinho preferido e um bilhete que dizia: “Venha sem fazer alarde”. Seu coração há tantos anos esperando por uma trágica notícia, se encheu de esperanças novamente e quase não pode suportar a impressão de que poderia estar enganado. Sentiu que o marido voltava para ela e não demorou a atender ao pedido, de vestido vermelho, flores no cabelo e perfume entre os seios.


Quando chegou ao local do encontro - o restaurante do hotel mais caro da cidade - percebeu que se tratava mesmo de seu marido. Apesar da grande barba grisalha, dos cabelos crescidos e das roupas caras, jamais o confundiria com qualquer outro homem no mundo. Conversaram. O Tenente explicou que resolveu seguir com um grupo de oficiais que, juntos, partiram em busca de um tesouro lendário, que um índio - rastreador do exército – contou existir numa noite de muita bebida e pouca ação. Assim que a paz foi anunciada, enquanto todos voltavam para casa, ele e seus companheiros empreenderam uma busca ao tesouro. Ficaram perdidos na mata, passando frio e fome, fugindo de homens e bichos. Alguns não resistiram e morreram pelo caminho. Quando estavam prestes a desistir, encontraram a fortuna e ela era incalculável. Repartiram entre si, mas a viagem de volta foi mil vezes pior que a de ida. Além dos inimigos já citados, tiveram que se resguardar da ganância dos companheiros e lutar para resistir à própria vontade de ficar com todo o ouro.


Quando conseguiram chegar a uma cidade e se hospedar em um hotel, o Tenente foi surpreendido pelos acompanhantes que tentaram lhe roubar. Os três lutaram e o Tenente conseguiu dominar os adversários, mas num impulso de ganância e desejo de vingança, pegou todo o ouro que havia e abandonou os homens amarrados e amordaçados no quarto do hotel. Depois disso não teve mais sossego e precisou fugir para não ser capturado. Esteve próximo de casa por duas vezes, mas percebeu que a mulher estava sendo vigiada e resolveu não se arriscar. Há seis meses soube que os oficiais haviam morrido. Depois de uma pequena investigação, viajou de volta para buscar o maior de todos os tesouros.


O Tenente pediu a Dorinha que não voltasse ao apartamento para buscar nada, por precaução. Prometeu que lhe daria coisas muito melhores. Deviam partir no dia seguinte para a mansão que ele havia construído especialmente para os dois durante os anos de exílio.


Isadora aceitou de imediato. Passaram a noite acordados, matando as saudades acumuladas e fazendo planos para a nova vida. De manhãzinha, antes mesmo que o sol dispersasse a neblina da madrugada, o casal partiu em direção ao Norte do país para viver quase à fronteira, numa casa belíssima e enorme, protegida por seguranças e uma densa mata.


O caso é que dezesseis anos não são dezesseis dias e, com o passar do tempo, o Tenente Umbelino Paiva se mostrou inconstante e com idéias persecutórias. Passava o dia checando os planos de fuga de emergência, ou verificando se as travas da casa ainda funcionavam. Treinava cães para atacar caso a propriedade fosse invadida e não permitia que Isadora saísse sob nenhuma condição. Nunca dormiam juntos, pois ele gostava de pernoitar na câmara subterrânea que construiu para guardar parte do que possuía.


Isadora percebeu que o marido havia se tornado escravo do dinheiro e da vida de foragido que levara por tanto tempo. Acostumou-se ao papel e não soube abandoná-lo. Não reconhecia mais o homem leve e protetor de antes, que teria feito qualquer coisa para estar a seu lado. Vivia agora com dinheiro, mas nem por isso tinha a vida confortável que o Tenente havia prometido.


No terceiro mês de convivência, exatamente no primeiro dia, Dorinha colocou seu vestido vermelho, preparou uma mesa para dois na varanda e imaginou-se acompanhada do marido; não daquele que dormia no porão, mas do outro, do que não voltou da guerra.  E esperou até o último de seus dias.