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sábado, 27 de agosto de 2011

O saxofonista do Padre Elpídio



Querêncio sempre fora um rapaz estranho. Seu aparecimento na cidade de Poço das Almas já predizia que sua vida não seria como a das outras pessoas. Na mesma noite em que um meteoro cortou o céu e caiu nas terras dos ciganos abrindo um buraco no chão onde cabiam umas cinquenta pessoas, um bebezinho foi achado chorando a apenas alguns metros de distância do evento apocalíptico. Tinha os olhos negros dos pumas, os cabelos pretos espessos e lisos, a pele morena e uma marca de nascença que lembrava um pequeno mapa na bochecha; estava enrolado em panos limpos e carregava um bilhete com o que parecia ser seu nome, mas numa língua desconhecida de todos na cidade. Foi levado para o orfanato do padre Elpídio e ele batizou o bebê com o nome de Querêncio da Hora. Cresceu com os outros meninos do abrigo, tendo por único pai a figura bondosa do velho padre.


Aos dezesseis anos, quando foi mandado à Cabiceira do Rio Seco buscar um médico para cuidar de dois internos que haviam contraído malária, desapareceu. Procuraram por quase um ano na cidade e nos arredores, até que o padre desistiu e entendeu que o tempo de Querêncio não lhe pertencia.


Passaram-se quinze anos antes que Querêncio retornasse a Poço das Almas, dessa vez de forma bem discreta. Instalou-se numa casinha de pau-a-pique perto do rio e passou a fazer visitas periódicas ao cemitério atrás da igreja para colocar cravos brancos no túmulo do padre. Ninguém sabia do que vivia o que havia acontecido nos anos que passou desaparecido ou o que o tinha feito voltar. Só o que sabiam era o que se falava nas barbearias e nos botecos, nas reuniões de família e nos bancos das praças: que Querêncio havia surgido misteriosamente, trazido pelo meteoro, e que não era humano, mas uma criatura do outro mundo.


Os hábitos do homem não ajudavam a desmistificar o conceito que formaram a seu respeito. Querêncio permanecia recluso a maior parte do tempo e, nas raras vezes que deixava sua casa, só o fazia à noite; sempre ia ao cemitério, ou subia nas colinas para tocar em seu saxofone melodias encantadas que ele mesmo compunha.


Um ano depois de seu retorno, coisas estranhas começaram a acontecer. Primeiro, os animais das fazendas da região amanheciam mortos sem qualquer sinal que pudesse indicar a causa; depois, alguns incêndios e o desaparecimento de três pescadores numa noite de lua cheia.


Os moradores associaram a Querêncio os fenômenos sobrenaturais que atingiram a cidade e, suas suspeitas se agravaram quando souberam que um menino apareceu morto a apenas dez metros do chalé onde o misterioso homem morava. Quem viu relatou que, ao lado do corpinho do menino foi encontrada a palheta de um saxofone, e não precisaram de mais provas. Dirigiram-se ao chalé, mas não havia sinal do facínora, puseram fogo em tudo e dividiram-se em grupos para tentar capturar o homem e pôr um fim aquele desespero que tomou conta das mulheres e crianças. O delegado disse que o queria vivo, pois viu na ocasião a oportunidade de se autopromover, mas a histeria tomou conta das pessoas de tal forma que ele não confiava muito na sorte de poder utilizar a captura a seu favor.


À meia noite do segundo dia de caçada, o céu tornou-se ígneo e todos puderam ver uma bola incandescente sair de onde havia o buraco do meteoro e cortar as nuvens escuras em direção ao infinito. Ao chegarem ao local do buraco, era como se ele nunca houvesse existido e, bem no centro de onde deveria estar, acharam o saxofone e um ramo de cravos brancos. Todos retornaram às casas, aliviados, pois acreditavam que Querêncio havia voltado para o lugar de onde viera quando ainda era um bebê. Sentiram-se em segurança e a felicidade podia ser vista estampada nos rostos de cada um. O prefeito fez um anúncio extraordinário de sua varanda, declarando aquele dia como feriado municipal; mas, quando as luzes se apagaram e cada um se encontrava deitado em sua cama, ouviu-se, ao longe, o som do saxofone executando as músicas já tão conhecidas. Um arrepio percorreu o corpo de cada morador, os mais fracos sentiram o sangue lhes congelar nas veias, enquanto os pobres animais se agitavam. No céu, três bolas de fogo cruzavam em direção à mata.


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