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domingo, 17 de junho de 2012
sexta-feira, 15 de junho de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
quarta-feira, 13 de junho de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
domingo, 6 de maio de 2012
sábado, 5 de maio de 2012
Enfim...
Num quarto escuro,
fruto de decisões erradas,
Samara chegou aos setenta e três
mal vividos anos.
A solidão doía como o remexer contínuo
de uma faca cega,
e o arrependimento
era a mão que a empurrava
estômago adentro.
Procurou por rostos amigos,
mas eles ficaram nas fotografias
na gaveta esquerda da cômoda,
junto aos outros pertences,
nos lugares tantos dos quais saía abanando as mãos
orgulhosamente.
Não tinha medo, que até ele havia abandonado-a.
Sabia o que viria a seguir
e desejou que fosse breve e indolor,
mas não foi.
Um por um
seus fantasmas compareceram
para o veredicto final,
e da boca de cada um deles ouviu constrangida:
- Culpada! Completa e indiscutivelmente culpada
pelo desperdício da vida!
segunda-feira, 16 de abril de 2012
sábado, 7 de abril de 2012
De que lado?
Muda, imperceptível, estagnada.
E a vida segue,
E a marca fica,
E o melhor seria esquecer.
Mas qual?
Esquecer implica
Em deixar ir.
A porta bate atrás dela
E o mundo para,
Então ela volta
E tudo recomeça.
Ele diz que não sabe,
Mas é insuportável ficar.
Ficar é aceitar a dor
E isso não faz o seu tipo,
Mas ela não é a mesma de antes
Há muito tempo...
- Não, meu bem,
Preciso me resgatar,
Dessa vez
A porta vai se abrir
E quando ela fechar
Eu não estarei mais aqui.
quarta-feira, 21 de março de 2012
Contos recontados - A rainha do baile.
Mais uma segunda-feira como tantas que já passaram pela vida da jovem Cindy, pelo menos era o que ela achava. Desde que seu pai morreu, deixando-a aos cuidados da madrasta, Cindy não teve mais um momento de descanso. Levantava as cinco da matina, preparava o café, punha a mesa e começa a passar a roupa recolhida na noite anterior. Fazia todas as tarefas enquanto a casa ainda dormia e, Borralho, o gatinho da família, passeava entre suas pernas ronronando baixinho como se conversasse.
Quando Dona Genoveva e as filhas acordassem Cindy desejaria estar em qualquer lugar do mundo, menos em casa. Sua sorte é que elas costumavam acordar tarde, hora em que ela já estava a caminho do trabalho. Cindy trabalhava como vendedora em um shopping não muito longe dali, mas sonhava mesmo era em ser dançarina, modelo ou atriz. Queria viajar pelo mundo e não precisar voltar para casa no final do dia. Sentia saudades de seus pais e da vida maravilhosa que teve ao lado deles, mas não podia voltar o tempo e não era saudável viver no passado. Por isso seguiu em frente e tentou se adaptar o mais que pode na vida de empregada da casa em que foi criada e que deveria ser dona. Também não se afundou em tristeza depois que a madrasta a proibiu de continuar o balé, só lamentou muito ter saído da escola, achava quase impossível mudar a situação na qual estava sem uma formação decente. Todo o dinheiro que recebia na loja era entregue nas mãos de Dona Genoveva, não ficava nem com o do lanche. Isso tornava bem mais difícil fazer algum curso, mesmo que escondido. Pensou então que nada dura para sempre e chegaria o dia no qual a madrasta estaria muito ocupada para perceber o que acontecia em sua vidinha sem graça.
Esse dia não demorou tanto assim para chegar. Quando chegou a casa tarde da noite, encontrou as irmãs em polvorosa por causa de um baile que aconteceria no bairro. Não seria um baile comum. Nesse em particular, o DJ Maicon, o carinha mais gato das redondezas, escolheria uma nova dançarina para seu show. É claro que as irmãs de Cindy iriam concorrer! Cindy também pediu autorização, mas a madrasta negou em meio a muitas risadas.
- Por quê? Por que não posso?
-Porque quanto menos concorrentes melhor para as meninas. Não que você seja uma ameaça, mas é melhor não arriscar.
E assim, a moça deu-se por vencida.
Os dias se passaram e, no dia do concurso Cindy trabalhou muito abatida. Verônica, – sua gerente e melhor amiga – percebendo que alguma coisa havia acontecido, conversou com Cindy e a moça lhe contou tudo. Inconformada, a amiga tirou algumas roupas do cabide e entregou à amiga dizendo:
- Vá, pegue emprestado e participe do concurso. Vou te deixar sair mais cedo e você me recompensa ganhando daquelas duas bruxas. Só tem um lance, hoje é dia de balanço e a roupa tem que estar aqui antes do amanhecer, lavada e seca. Cuidado na hora de tirar a etiqueta. Certo?
- Vê, não existe amiga melhor que tu. Deixa comigo. Vou e volto num instante.
E Cindy partiu em direção ao concurso radiante.
Quando entrou no baile, o DJ Maicon ficou impressionado com tanta beleza e carisma. Cindy era perfeitinha, só faltava saber se dançava bem. A menina subiu ao palco e “quebrou tudo”, deixando as outras competidoras humilhadas. Ganhou o concurso sem esforço, mas não houve tempo para receber o prêmio. Verônica ligou avisando que precisava dela na loja o quanto antes.
No dia seguinte, Cindy – que não era dessas mocinhas que esperam o príncipe tomar a iniciativa – ligou para a organização do evento e explicou que teve uma emergência, por isso saiu do baile antes do previsto. Passou o endereço da loja em que trabalhava e pediu que entrassem em contato.
Lá pelo meio da tarde, DJ Maicon em pessoa entrou na loja procurando por Cindy. Todos responderam quase juntos, apontando para a garota mais gata do lugar:
- Cindy? É ela!
DJ Maicon convidou Cindy para tomar um chope ali perto, conversaram e ela aceitou ser uma de suas dançarinas. Casaram-se seis meses depois e, dizem as más línguas, Dona Genoveva e as filhas não se conformaram até hoje.
terça-feira, 6 de março de 2012
Lílian, a Carta e a Pedra Marcada
Sinopse de Lílian, a Carta e a Pedra Marcada:
Os pais de Lílian Amaral estão estranhos. Camilo e Marina não falam com a filha sobre o que está acontecendo, mas ela percebe que há algo errado. Camilo passa muito tempo fora de casa, e Marina vive triste e preocupada pelos cantos. Por isso, Lílian não fica surpresa quando acorda um dia e descobre que irá se mudar para a casa dos avós maternos que nunca conheceu. A fazenda de seus avós fica no extremo oposto de Azagaia quase um dia inteiro de viagem, na cidade de Poço das Almas. Lílian sabia que seu avô comandava a cidade por ser um descendente direto de Genésio Gutierrez, fundador de Poço das Almas. A menina acreditava que o avô, Silvestre Gutierrez, fosse um homem impiedoso e antipático, mas não foi o que encontrou quando desembarcou na cidade de sua mãe. Poço das Almas foi para ela como voltar para casa, apesar de nunca ter posto seus pés naquela cidade.
A vida dupla de Lílian não a incomodava. Passava a maior parte do tempo na fazenda com os avós e a mãe, mas sempre que o pai podia a levava para passar um tempo com ele em Cabeceira do Rio Seco, sua cidade natal. Numa dessas visitas a sua cidade, Lílian conhece Daniel Castilho, o menino misterioso que se mudou para "a casa velha de Dona Augusta". Quase que imediatamente Lílian se apaixona por Daniel, mas não é correspondida no início. O menino a trata como uma irmã mais nova, pois ela tem a mesma idade de seu irmãozinho Davi. Com o passar dos anos, porém, tornam-se amigos próximos.
No verão em que Lílian completa dezesseis anos, porém, as coisas mudam. Daniel se declara e os dois começam a namorar, mas não por muito tempo. Antes do verão acabar, o assassinato misterioso do Rei Amadeo traz de volta os tempos de guerra a Azagaia e Lílian precisa ser levada para Poço das Almas, pois Cabeceira não é mais segura para ela. Quando recebe a notícia de que terá que partir Lílian procura por Daniel para se despedir e não o encontra. Em Poço das Almas, a menina descobre que o avô está à beira da morte e ela terá que tomar seu lugar. Redenção e Cabeceira do Rio Seco se aliam à Ilha do Véu e Lílian tenta um acordo de paz para evitar uma guerra truculenta. Um encontro é marcado com o representante dos Continentais, o novo rei da Ilha do Véu, Ori. Para surpresa de Lílian, Ori é na verdade Daniel, que estava em Cabeceira para se proteger das ameaças que a família real vinha sofrendo. Os dois então, tentam um acordo de paz, mas seus ministros e familiares não permitem, e Lílian terá que enfrentar na guerra quem escolheu para amar.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Antropologicamente
Os olhos apertados, à espreita,
Cuidadosamente escondidos
Na penumbra,
Perscrutam o universo
À frente
Com o interesse dos caçadores.
Dos caçadores que não voltam
Para casa famintos.
A presa
Atravessa seu caminho
Com o rebolado e a imprudência
Que só as presas têm.
Os olhos esperam pelo momento certo,
Pelo instante no qual
Irão encurralar seu alvo.
E o alvo bebe um drinque
Que deixará sua carne
Mais leve e saborosa.
Os olhos se aproximam e,
Quase no mesmo instante
Levam a presa consigo,
Para a escuridão da noite.
http://textodegaragem.blogspot.com/2012/02/antropologicamente.html
domingo, 5 de fevereiro de 2012
sábado, 28 de janeiro de 2012
Texto de Garagem: Busílis
Caminhava lentamente pelas ruas da cidade, pés descalços, a atenção totalmente voltada para dentro. O que procurava não poderia encontrar longe de seu coração, mas precisava provocar as sensações, precisava do estímulo que não encontrava enclausurada em seu apartamento. O vento da noite não trazia nada aos seus ouvidos, nem o barulho das pessoas, nem o cheiro do caminhão de lixo passando... Nada... Nem uma palavra. “Estava perdida”, pensou, “nunca mais escreveria uma linha. Sua fama de excelente articuladora de palavras, de mestra das ideias, de conhecedora da alma humana... tudo ficaria para trás.” O que faria agora, que sua personagem já estava amalgamada em sua personalidade de uma forma tão indiscutível que não saberia viver sem ela? Estranho que o primeiro sentimento não fosse de dor, mas da raiva de ter que admitir aos críticos que eles sempre tiveram razão, que aquilo acabaria um dia. Pensou na amiga de infância que se afastou quando ela começou a fazer sucesso. Ou foi ela quem se afastou de todos? O fato é que agora se sentia como uma câmara escura e fria, uma câmara mortuária, onde nada poderia surgir, a não ser dor, espanto e tristeza. A partir de agora, perambularia pela cidade como uma pessoa comum, sem qualquer dom especial. Será que algum dia fora diferente? Ou sua arrogância a fez pensar que portava algum tipo de missão de levar ao mundo o que ele não poderia ter sem ela?! Que tola! Que menina tola e vazia! Suas palavras não passavam de um rearranjo das de outras pessoas, uma repetição de histórias que alcançaram corações mais vazios que ela. Sentiu-se o maior dos enganos, a farsa do século, e até nisso queria ser grande!
Voltou para casa com os pés imundos e a sensação de que nada a faria sentir novamente as emoções da estreia, aquela sensação maravilhosa de que algo incrível está para acontecer, de que sua vida vai mudar, de que o sonho irá se tornar realidade. O sonho aconteceu há tanto tempo que já nem se lembrava de haver sonhado, e as obrigações da nova imagem que fez de si mesma enterraram bem fundo o sabor de estar vulnerável. Olhou para o homem que dormia em sua cama, para os filhos no quarto ao lado, para todas as coisas que possuía, e sentiu-se a mais solitária de todas as mulheres. Não havia ninguém que pudesse entender o que se passava com ela. Seu sofrimento era incomunicável. Não adiantaria tentar dormir porque o sono não viria. Tomou um banho demorado e chorou todas as suas mágoas, chorou a raiva, a dor, o abandono... Um pouco mais leve, foi até a varanda, e deixou o vento secar a água de seu corpo nu. Um homem que vasculhava o lixo parou e a observou, uma interrogação no rosto. Vestiu-se e desceu pelas escadas, sem paciência de esperar pelo elevador. O homem estava indo embora, mas ela o chamou até que ele não pudesse mais fingir que não a ouvia. Sentaram-se na calçada e conversaram até o amanhecer como dois amigos de longa data que há muito não se viam. Despediram-se depois de um café bem quente da padaria que começava sua rotina, e se foram, lados opostos. Ela entrou, pegou papel e caneta como antigamente e começou a escrever: “Nesses olhos doídos de uma vida de privações, ainda há um homem que observa...”
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
A mentira.
Furtiva e perigosamente
se esconde atrás daquela
máscara
e senta resfolegando
com enorme e falsa
simpatia.
A escuridão em torno
de seus olhos,
brilhantes,
é maior que quase tudo
o que existe.
Dirige seus passos,
meticulosamente,
pelos caminhos incertos
que construiu,
e rouba a sua paz
às escâncaras.
Está em suas mãos
rejeitá-la,
rejeitá-la,
mas decides
acariciá-la como a um bebê
inerme.
Só não te esqueças
de que crescerá
e te engolirá
impiedosamente.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Blog Lena Mademoiselle Artesanatos
Pessoal,
esse é o blog de artesanatos da Tia Lena! Tem muita coisa linda para festas e ainda vamos postar muito mais!!!
Aproveitem!!!
http://lenamademoiselleartes.blogspot.com/
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
A distância intransponível do destino
A menina Ametista mal
havia completado quatorze anos quando foi dada em casamento pelo pai a um homem
quinze anos mais velho. Dr. Amaranto praticamente vendeu a filha a um velho
conhecido, evitando, assim, perder a fazenda que pertencia à família há mais de
cinco gerações.
Mariano Lorenzo, ao
contrário do que pensavam as más línguas da cidade pretendia casar-se com
Ametista porque não suportava injustiças, e teve pena de ver a moça ser
negociada pelos armazéns da cidade como um carregamento de café. Além do mais,
estava mesmo procurando uma esposa e decidiu que seria Ametista. Assim, estava
fazendo o bem a muitas pessoas com uma mesma atitude: Dr. Amaranto teria o
dinheiro que precisava, Ametista estaria protegida e ele teria uma companhia em
casa. Dr. Amaranto marcou um jantar para que os noivos se conhecessem e Mariano
soube, no exato momento que pos os olhos em Ametista, que a amaria para o resto
de sua vida.
Casaram-se depois de
três meses, em cerimônia íntima, a qual só compareceram os familiares. A noiva,
totalmente ignorante dos planos de seu futuro marido, não parava de chorar.
Trazia uma bonequinha de pano no lugar do
buquê, entregou-a a irmã ao fim da cerimônia e aconselhou-a a fugir do pai
enquanto se abraçavam.
Antes de se recolher ao
seu quarto de esposa, Dr. Amaranto levou-a a um canto e disse:
- Não negues nada a teu
marido porque não aceito devoluções. Sua tia já lhe contou tudo o que precisas
saber para agradares a teu homem?
- Ceio que sim, papai.
- Pois bem, não me
envergonhes e seja uma boa menina. Ele agora é o seu dono, e a família dele,
sua família.
Ao entrar no quarto,
pensou em jogar-se da janela, mas calculou que a altura não a mataria e também
tinha medo de ir para o inferno. Vestiu a camisolinha branca que a esperava
pendurada no cabideiro e aguardou pelo homem que não conhecia direito, mas já
odiava. Quando Mariano apareceu, sentiu que não precisava ter medo, e resolveu
enfrentar seu destino com dignidade. Esticou-se na cama de casal e levantou a
camisola até a cintura; virou o rostinho para o lado e esperou sobreviver
àquela noite. Mas o marido lhe baixou a camisola, pediu que se sentasse e
disse:
- Ametista, o que vou
lhe dizer, talvez não compreendas agora, mas gostaria que ouvisse com atenção.
Desde que te vi na casa de teu pai meu coração não mora mais em mim. Amei-te
sim, e justamente por isso seria incapaz de lhe fazer qualquer mal. Tenho meu
orgulho e não quero obrigar minha própria mulher a me amar, muito menos a me
suportar por medo. Por isso, gostaria de lhe fazer uma proposta vantajosa para
nós dois. Preciso de alguém que cuide da casa para mim. Como sabe, fiquei viúvo
do primeiro casamento quando minha esposa morreu no parto. Desde então, minha
mãe cuida de meu menino, mas ela já é velha e não durará para sempre. Preciso
de uma mulher que me ajude e me faça companhia. Por outro lado, você estava
numa situação delicada. Prometo não te tocar até que você esteja pronta. Só o
que peço é que sejamos amigos e cuidemos um do outro. Tem minha palavra de que
eu libero você de seu compromisso se completar a maioridade e não quiser mais
viver ao meu lado.
Estava claro no rosto da
menina que ela havia sido pega de surpresa.
- Não sei o que
dizer... Estava pronta para tudo, menos
para isso. Também não tenho opção, certo?
Se bem entendi, ou aceito sua proposta, que é bem melhor do que pensei
que fosse me acontecer hoje, ou volto para o meu pai e corro o risco de parar
nas mãos de um homem muito menos misericordioso.
- Eu não te devolveria.
Você pode ficar de qualquer jeito, mas estou sendo sincero e abrindo meu
coração. Sei que é uma moça sensata, não acha justo que sejamos amigos?
- Claro. Mas, se não for
pedir muito, gostaria que minha irmã fosse poupada de ter um destino incerto
nas mãos despreparadas de meu pai. Se você pudesse falar com ele...
- Não se preocupe.
Paguei o preço pelas duas e seu pai se comprometeu comigo, mediante uma quantia
razoável, de que sua irmã só se casaria quando, e se decidir, e com quem
escolher.
- Vejo que o que sentes
é sincero e forte. Aceito sua proposta, mas receio que não possa garantir que
vá me apaixonar e chegar a amá-lo.
- Isso é comigo. Não
tenho pressa. Só te peço, por enquanto, que me ajudes com a casa. O resto a
gente vê depois.
- Está bem. Cuidar de
uma casa eu sei.
Ametista estendeu a
mãozinha a Mariano e ambos selaram o acordo com um brinde de água. Ele
deitou-se no sofá de frente para a cama, e ela sumiu entre os travesseiros do
leito conjugal.
Os dois tornaram-se os
melhores amigos, e viviam um para o outro tão dedicadamente, que não havia quem
pudesse duvidar que não fossem apaixonados. Ametista cuidava da casa com a
firmeza de uma velha senhora, Mariano andava mais bem vestido, estava mais
disposto no trabalho e até engordara um pouco. Depois de algum tempo, Ametista
mandou que trouxessem sua sogra e o enteado para que vivessem todos juntos, e a
felicidade de Mariano não poderia ser maior.
Os anos passaram e a
família se manteve em harmonia, mas Ametista sentia-se pressionada com a
chegada de seus vinte e um anos. Ela sofria por constatar que, mesmo que o
marido fosse o melhor dos homens e que sua vida fosse desejável até para a mais
desalmada das mulheres, não havia se apaixonado por Mariano. Há dois anos sua
irmã caçula encontrou o amor e casou-se. Ouviu seus relatos de paixão
angustiada, de sensações de morte a cada correspondência trocada com o noivo,
acompanhou as providências para o casamento e esteve com a irmã até o momento
de entregá-la ao marido. Depois que o jovem casal voltou de lua-de-mel,
instalou-se numa casa espaçosa e romântica na vizinhança e, todas as vezes que
as irmãs se visitavam Ametista percebia que nunca havia tratado o marido com
tantos carinhos, e que havia entre eles certo constrangimento até quanto a
questões sentimentais. Isso a fez concluir que nunca se apaixonou, mesmo que
Mariano merecesse mais que todos ser amado, ela não enlouquecia na sua
presença. Antes, entre eles se formou uma sólida amizade, e sabiam ler os
pensamentos um do outro com tanta eficácia que quase não precisavam se falar. Riam
juntos e se divertiam bastante na companhia um do outro, porque suas almas se
agradavam das mesmas distrações e passatempos. Quem os conhecia na intimidade
do lar, julgava ser impossível que duas pessoas buscassem tanto o bem-estar uma
da outra como no caso deles. Ametista, porém, não enxergava essa cumplicidade
como amor, entendia que só poderia ser gratidão e carinho o que a ligava a
Mariano, e ele não merecia tão pouco.
Quando completou vinte e
um anos, Ametista ganhou um apartamento na cidade e a mais espetacular festa de
aniversário. Era, ao mesmo tempo, uma comemoração e uma despedida. Separaram-se
dois meses depois, ainda unidos pela amizade e algumas formalidades jurídicas.
Acontece que nem sempre
sabemos identificar nossos sentimentos e, na solidão da vida de descasada,
Ametista compreendeu que não era apenas amizade o que sentia por Mariano. É bem
verdade que não estremecia ao seu toque, nem sua cabeça girava ao som de sua
voz, mas longe dele sentiu-se incompleta e vazia. Seus dias arrastavam-se sem
sentido e acordava à noite com angústias de não poder ver o marido nunca mais.
Antes que completasse um mês longe da família que aprendera a amar, reuniu toda
a coragem que tinha e resolveu voltar à fazenda e declarar todo o sentimento
recém descoberto. Queria viver com ele até o fim de sua vida, feliz e cheia de
filhos.
A viagem de volta durou
quase um dia inteiro por culpa das chuvas de verão que castigavam a região
todos os anos, provocando enchentes e desmanchando o barro das estradas. Para
não atolar, o motorista teve que parar várias vezes e esperar que estiasse um
pouco. À medida que se aproximava, o coração de Ametista batia mais forte.
Pensava nos anos que passou ao lado de Mariano, nas vezes todas que riram
juntos, e em outras que choraram juntos também. Como naquela vez que ele perdeu
toda a safra de café por causa dos vendavais que atingiram a cidade fazendo os
rios subirem e alagando tudo na região, como esse que contemplava da janela do
ônibus. Estiveram juntos por tanto tempo e com tanta liberdade, que não havia
percebido o momento exato que se permitiu amar, apesar de ter jurado para si
quando menina jamais pertencer a homem algum. Agora, pelo contrário, sentia que
pertencia a Mariano e só a ele, e que nenhum outro poderia ter morada em seu
coração.
Estava tão distraída em
seus pensamentos, que não percebeu o alvoroço instalado na frente da casa
principal quando o ônibus parou na entrada da fazenda. Só depois de ter se
aproximado o suficiente para ouvir os comentários foi que notou que alguma
coisa estava muito errada. Ao mesmo tempo em que precisava saber do que se
tratava, teve medo. Uma certeza invadiu seu coração e soube que toda aquela
agitação estava relacionada a Mariano. Teve vontade de chorar, mas se conteve.
Subiu as escadas da varanda de dois em dois degraus, e atravessou a sala com a
rapidez de um pensamento, parando abruptamente quando viu a sogra sair do
quarto do filho, a expressão de quem viu um fantasma ou coisa pior. Ao cruzarem
os olhos, correram para os braços uma da outra, e dona Hildebranda contou tudo
a Ametista:
- Minha filha, que
tristeza! Hoje cedo... Estava tudo tão bem... Exceto pelo fato de estarmos com
saudades de você, claro. Mariano sofria muito com sua ausência. Desculpe-me,
mas é a verdade.
- Imagine dona
Hildebranda! Não há o que se desculpar. Ter partido foi mesmo uma bobagem. Mas
diga-me, o que houve?
- Pois é... Ele estava
trabalhando como sempre e parou para almoçar mais tarde porque precisava
terminar todo o trabalho antes da chuva cair. Deitou-se depois do almoço nas
espreguiçadeiras da varanda e, não tinha dez minutos que fechara os olhos,
escutou os gritos dos rapazes por causa de um cavalo que fugiu para a estrada.
Mandou que Vicente corresse para a curva para sinalizar enquanto ele puxava o
bicho, mas um ônibus vinha em sentido contrário, com a visão prejudicada pela
chuva que começava a cair, e não viu meu menino. Passou a noite em agonia, e o
doutor garantiu que não terá outra.
Ametista não sabia o que
dizer, ficou olhando o rosto daquela senhora sentada a sua frente. Queria
abraçá-la, confortá-la, mas não tinha forças. Talvez, nesse exato momento, o
homem que a amou mais que tudo, e que ela descobriu amar também, estivesse
partindo sem ter ouvido dela uma única vez as palavras mais verdadeiras que
decidira falar em sua vida. E tudo isso porque deixara o tempo passar demais.
Tantas oportunidades perdidas, tanto amor recusado, tanto desejo contido...
- Dona Hildebranda,
posso vê-lo?
- Claro que sim,
querida. Sinto dizer que ele está inconsciente, mas vá.
Ametista entrou no
quarto e a imagem que viu ficou marcada em sua memória até a noite de sua
morte, sessenta e quatro anos depois, no mesmo quarto, sobre a mesma cama. Aproximou-se
do marido e, devagar, segurou suas mãos. Declarou todo o amor que sentia por
ele, sentada na cama ao seu lado, pediu desculpas pelo atraso das palavras e
jurou cuidar de sua família até o último de seus dias, casta, e que assim
encontraria com ele na eternidade.
Uma lágrima correu pelo
rosto de Mariano, e Ametista entendeu que ele havia concordado com sua decisão.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Continho de Carnaval
Quando saía
de casa naquela manhã efervescente e inatacável, Geórgia pensou aliviada no
quanto estava feliz em poder fugir daquilo tudo. Aquilo? O carnaval carioca!
Era ela avessa a tudo o que representasse aquele dia. A música ritmada pela
percussão enérgica, o movimento urgente das pessoas pelas ruas, as notícias de
jornal girando em torno do evento, a vizinha costureira fazendo plantões para
dar conta das encomendas... Tudo o que a fizesse lembrar-se daqueles dias
enlouquecedores. Então ela simplesmente decidiu, há muitos anos, alugar uma
casinha numa dessas cidades de interior onde até o tempo esqueceu-se de passar;
e corria para lá tão logo os primeiros sinais de ebulição carnavalesca
começassem a aparecer.
Obviamente
esse ano não seria diferente, e Geórgia saía aliviada de casa rumo a seu retiro
anual com uma pequena bagagem de mão e um livro cuidadosamente escolhido para a
ocasião. Ao tentar fechar a porta, porém, quebrou a chave na fechadura e seus
planos tomaram um rumo diferente.
- Mas que
droga! – deixou sair em voz alta, como se a chave tivesse feito de propósito –
e agora?!
Procurou seu
celular na bolsa e ligou para um chaveiro.
- ...E vai
demorar? Sei, sei, tente ser o mais rápido possível, ainda preciso pegar a
estrada. Certo. Estou aguardando.
Esperou por quarenta minutos pelo chaveiro que a seguradora prometeu mandar em vinte. Finalmente,
viu o carro com o slogan da empresa parando em frente ao jardim.
- Dona
Geórgia é a senhora?
- Sou eu
sim...
- Desculpe-me
a demora. É o trânsito, está uma loucura hoje. Meu nome é Fred. Vamos dar uma
olhada nessa fechadura...
- Você acha
que vai demorar? – perguntou Geórgia.
- Não
senhora, uns vinte minutos...
- É eu sei,
já ouvi isso antes.
Geórgia puxou
uma das espreguiçadeiras da varanda, depositou a bolsa na mesinha e recomeçou a
leitura que havia parado na noite anterior ao escolher o livro.
- Pronto! –
disse Fred depois de alguns minutos – sua fechadura está novinha em folha! O
Livro da Solidão, de Cecília?! Excelente escolha!
- É, você
conhece?!
- Sim, conheço.
Você falou como se não fosse possível...
- Desculpe-me,
não foi minha intenção te ofender. Eu e meu jeitinho especial com as pessoas! Vamos
fazer o seguinte: você aceita um café como pedido de desculpas e me diz o que achou
do livro.
- Ah, eu vou
aceitar sim! Nunca rejeito um café fresquinho e uma conversa boa.
- Concordo,
como é mesmo o seu nome?
- Frederico,
mas pode me chamar de Fred.
Geórgia
entrou em casa completamente esquecida da casinha no interior e da estrada que
ainda teria que enfrentar, colocou água no fogo e, enquanto fazia o café teve
uma das conversas mais interessantes de sua vidinha solitária e presunçosa. Ao
fim de três ou quatro xícaras, despediu-se de Fred com a sensação de que aquele
momento poderia ter durado a vida inteira que ela nem perceberia. Desistiu de
viajar naquele dia, e aproveitou a tarde ociosa para terminar o livro. Seu
pensamento não abandonava o café literário que tivera e o coração batia ansiosamente.
À noite, depois de um banho revigorante e um sanduíche improvisado preparou-se
para dormir, mas a campainha tocou e ela foi atender à porta apreensiva. Não
era de receber visitas, principalmente em um dia que não deveria estar em casa.
Entreabriu a porta da sala tomando o cuidado de não retirar a corrente de
segurança.
Do outro lado, uma máscara de clóvis apareceu acompanhada de uma risada aterrorizante. Geórgia congelou por alguns segundos, e quando o pensamento de que deveria fechar a porta chegou as suas mãos, a criatura tirou a máscara e Fred apareceu debaixo daquela personagem assustadora do carnaval.
Do outro lado, uma máscara de clóvis apareceu acompanhada de uma risada aterrorizante. Geórgia congelou por alguns segundos, e quando o pensamento de que deveria fechar a porta chegou as suas mãos, a criatura tirou a máscara e Fred apareceu debaixo daquela personagem assustadora do carnaval.
- Que susto você me deu! - Geórgia falou, ainda com a voz trêmula - Que faz aqui?!
- Desculpe-me! Queria ser engraçado, acho que não consegui.
- Não mesmo! Você me assustou de verdade.
- Sinto muito, agora é minha vez de te oferecer alguma coisa para comer como um pedido de desculpas. O que acha?
- Olha... acabei de fazer um lanche...
- Sei que vacilei na brincadeira, mas não consegui esquecer nossa conversa. É tão difícil conhecer uma pessoa interessante e...
- Calma! Você nem me deixou terminar. Como eu estava dizendo... acabei de lanchar, mas aceito dar uma volta para continuar aquela conversa de mais cedo.
- Ótimo! Quer dizer... por um segundo eu pensei...
- Tudo bem, eu entendi. Vou vestir um jeans e volto em um instante. Se incomoda em esperar aí fora? Não acho prudente abrir minha porta a essa hora para um homem mascarado. Eu assisto a filmes de terror.
- Aqui está ótimo. Sei que mereço depois do susto que te dei.
Geórgia subiu e vestiu as primeiras roupas que encontrou. Ao bater a porta de casa pensou em como eram estranhas suas últimas ações. Isso tudo não combinava com ela. Estava sendo irresponsável, no mínimo, mas alguma coisa naquele rapaz a atraía cegamente. Sentia que não poderia resistir, mesmo que fosse sofrer mais tarde. De uma maneira irracional, preferia arriscar. A noite estava muito agradável, mas o sentimento de que havia alguma coisa fora do lugar não a abandonava. Talvez fosse ela mesma, a deslocada, que não se divertia há tantos anos que já achava tudo muito estranho. Frederico era a melhor das companhias! Caminharam pelo centro quase vazio, por foliões desgarrados de seus blocos sentados ao lado de garrafas vazias ou fazendo um amor urgente nas sombras da noite escura, passaram ao lado de trabalhadoras noturnas que ofereceram amor para defender o do dia. "Atendemos aos dois pelo preço de um! - elas diziam - Promoção de Carnaval! Fred e Geórgia continuaram sua caminhada alheios a tudo o que os rodeava. Falaram do que liam, dos filmes que viam e dos lugares que conheceram, até que chegaram as suas vidas e abriram seus corações. Geórgia sentiu a pontada do amor tentando abrir espaço entre suas costelas até alcançar seu coração miudinho, atrofiado pelo tempo sem uso, esquecido entre os outros órgãos e, por um segundo parecia que o carnaval morava em seu peito. Que alegria! Que nostalgia! Que barulho ensurdecedor! Olhou em volta e pensou no quanto era insignificante e curta a vida do solitário. Viu que tudo tomava proporções infinitas e sofreu, ma o que é um grande amor sem algumas incertezas? Tirou as travas que ainda a mantinham no chão e entregou-se completa e irremediavelmente. Contrariando todas as escolhas que havia feito na vida, levou Fred até sua casa e abandonou as palavras para falar a língua dos amantes desesperados.
Ao amanhecer, porém, não encontrou o rapaz ao seu lado na cama e um medo terrível lhe invadiu a alma e congelou seu sangue. Olhou em volta a procura de sua bolsa, televisão, computador, e todas as coisinhas que comprou com tanto sacrifício ao longo de sua vidinha medíocre. As chaves! As chaves do carro! Sabia onde exatamente havia posto e não estava lá. Olhou na garagem e o carro havia sumido! "O carro que ainda estou pagando! Como pude ser tão idiota!" Não pensou duas vezes e ligou para a polícia."Como assim vão demorar?" Indignada, resolveu cobrar uma atitude do dono da seguradora, que empregou aquele vagabundo e a expôs ao perigo.
- Senhora, deve estar havendo algum engano, Frederico é um rapaz tranquilo e muito honesto. De qualquer forma nos comprometemos a verificar essa história e tomar uma atitude enérgica.
Isso não poderia ser relevado. Afinal, ele se aproveitou de sua carência, de sua fragilidade. Enquanto andava de um lado para o outro pensando no que fazer ouviu o barulho de seu carro e abriu a porta em desespero. Fred abriu a porta com um largo sorriso:
- Bom dia gata! Fui ao mercado comprar as coisas para o nosso café. Gosta de panquecas? O que foi? Que cara é essa? Aconteceu alguma coisa enquanto eu estava fora?
- Aconteceu. - ela sussurrou quase sem forças.
- E o que foi? Você está me deixando preocupado.
- Eu acabei com nosso amor...
Ao longe, a sirene da polícia indicava que o dia não seria nada agradável.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
domingo, 15 de janeiro de 2012
O tamanho da minha ignorância
Ignoro muitas coisas.
Um poeta em Uganda,
um assassino há quinze metros,
a dor de passar fome,
o que é perder tudo,
o dinheiro sobrando,
um riacho na Austrália,
a paixão que não acaba,
o calor do Saara,
quantos sóis tem na galáxia
que ainda não foi descoberta.
Há coisas que ignoro
inclusive para imaginar
que existam;
mas o que não ignoro
( e que até gostaria),
é o quanto a humanidade
pode desmerecer esse nome.
sábado, 14 de janeiro de 2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Lílian, a carta e a pedra marcada - Indrodução:
Acordei assustada, o corpo embebido em suor, já é de manhã e parece que dormi durante meia hora no máximo, meu corpo precisa descansar, mas minha cabeça não relaxa. Há meses venho sofrendo de insônia e tendo esse mesmo sonho de que estou me afogando e não tenho escapatória, desde que recebi a notícia de que minha vida mudaria drasticamente pela segunda vez. A primeira foi há muitos anos, quando eu era apenas uma garotinha...
luanaetrintaalmasteen.blogspot.com
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