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domingo, 6 de maio de 2012
sábado, 5 de maio de 2012
Enfim...
Num quarto escuro,
fruto de decisões erradas,
Samara chegou aos setenta e três
mal vividos anos.
A solidão doía como o remexer contínuo
de uma faca cega,
e o arrependimento
era a mão que a empurrava
estômago adentro.
Procurou por rostos amigos,
mas eles ficaram nas fotografias
na gaveta esquerda da cômoda,
junto aos outros pertences,
nos lugares tantos dos quais saía abanando as mãos
orgulhosamente.
Não tinha medo, que até ele havia abandonado-a.
Sabia o que viria a seguir
e desejou que fosse breve e indolor,
mas não foi.
Um por um
seus fantasmas compareceram
para o veredicto final,
e da boca de cada um deles ouviu constrangida:
- Culpada! Completa e indiscutivelmente culpada
pelo desperdício da vida!
segunda-feira, 16 de abril de 2012
sábado, 7 de abril de 2012
De que lado?
Muda, imperceptível, estagnada.
E a vida segue,
E a marca fica,
E o melhor seria esquecer.
Mas qual?
Esquecer implica
Em deixar ir.
A porta bate atrás dela
E o mundo para,
Então ela volta
E tudo recomeça.
Ele diz que não sabe,
Mas é insuportável ficar.
Ficar é aceitar a dor
E isso não faz o seu tipo,
Mas ela não é a mesma de antes
Há muito tempo...
- Não, meu bem,
Preciso me resgatar,
Dessa vez
A porta vai se abrir
E quando ela fechar
Eu não estarei mais aqui.
quarta-feira, 21 de março de 2012
Contos recontados - A rainha do baile.
Mais uma segunda-feira como tantas que já passaram pela vida da jovem Cindy, pelo menos era o que ela achava. Desde que seu pai morreu, deixando-a aos cuidados da madrasta, Cindy não teve mais um momento de descanso. Levantava as cinco da matina, preparava o café, punha a mesa e começa a passar a roupa recolhida na noite anterior. Fazia todas as tarefas enquanto a casa ainda dormia e, Borralho, o gatinho da família, passeava entre suas pernas ronronando baixinho como se conversasse.
Quando Dona Genoveva e as filhas acordassem Cindy desejaria estar em qualquer lugar do mundo, menos em casa. Sua sorte é que elas costumavam acordar tarde, hora em que ela já estava a caminho do trabalho. Cindy trabalhava como vendedora em um shopping não muito longe dali, mas sonhava mesmo era em ser dançarina, modelo ou atriz. Queria viajar pelo mundo e não precisar voltar para casa no final do dia. Sentia saudades de seus pais e da vida maravilhosa que teve ao lado deles, mas não podia voltar o tempo e não era saudável viver no passado. Por isso seguiu em frente e tentou se adaptar o mais que pode na vida de empregada da casa em que foi criada e que deveria ser dona. Também não se afundou em tristeza depois que a madrasta a proibiu de continuar o balé, só lamentou muito ter saído da escola, achava quase impossível mudar a situação na qual estava sem uma formação decente. Todo o dinheiro que recebia na loja era entregue nas mãos de Dona Genoveva, não ficava nem com o do lanche. Isso tornava bem mais difícil fazer algum curso, mesmo que escondido. Pensou então que nada dura para sempre e chegaria o dia no qual a madrasta estaria muito ocupada para perceber o que acontecia em sua vidinha sem graça.
Esse dia não demorou tanto assim para chegar. Quando chegou a casa tarde da noite, encontrou as irmãs em polvorosa por causa de um baile que aconteceria no bairro. Não seria um baile comum. Nesse em particular, o DJ Maicon, o carinha mais gato das redondezas, escolheria uma nova dançarina para seu show. É claro que as irmãs de Cindy iriam concorrer! Cindy também pediu autorização, mas a madrasta negou em meio a muitas risadas.
- Por quê? Por que não posso?
-Porque quanto menos concorrentes melhor para as meninas. Não que você seja uma ameaça, mas é melhor não arriscar.
E assim, a moça deu-se por vencida.
Os dias se passaram e, no dia do concurso Cindy trabalhou muito abatida. Verônica, – sua gerente e melhor amiga – percebendo que alguma coisa havia acontecido, conversou com Cindy e a moça lhe contou tudo. Inconformada, a amiga tirou algumas roupas do cabide e entregou à amiga dizendo:
- Vá, pegue emprestado e participe do concurso. Vou te deixar sair mais cedo e você me recompensa ganhando daquelas duas bruxas. Só tem um lance, hoje é dia de balanço e a roupa tem que estar aqui antes do amanhecer, lavada e seca. Cuidado na hora de tirar a etiqueta. Certo?
- Vê, não existe amiga melhor que tu. Deixa comigo. Vou e volto num instante.
E Cindy partiu em direção ao concurso radiante.
Quando entrou no baile, o DJ Maicon ficou impressionado com tanta beleza e carisma. Cindy era perfeitinha, só faltava saber se dançava bem. A menina subiu ao palco e “quebrou tudo”, deixando as outras competidoras humilhadas. Ganhou o concurso sem esforço, mas não houve tempo para receber o prêmio. Verônica ligou avisando que precisava dela na loja o quanto antes.
No dia seguinte, Cindy – que não era dessas mocinhas que esperam o príncipe tomar a iniciativa – ligou para a organização do evento e explicou que teve uma emergência, por isso saiu do baile antes do previsto. Passou o endereço da loja em que trabalhava e pediu que entrassem em contato.
Lá pelo meio da tarde, DJ Maicon em pessoa entrou na loja procurando por Cindy. Todos responderam quase juntos, apontando para a garota mais gata do lugar:
- Cindy? É ela!
DJ Maicon convidou Cindy para tomar um chope ali perto, conversaram e ela aceitou ser uma de suas dançarinas. Casaram-se seis meses depois e, dizem as más línguas, Dona Genoveva e as filhas não se conformaram até hoje.
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